as cidades estão tomadas de assaltos. de assuntos no dia-a-dia entre notas & notícias de mortos & feridos. ninguém segura o susto que surpreende o distinto cidadão. fatalidade não escolhe idade & há sempre um corpo encontrado na rota de uma bala perdida. a esperança vive escondida & não rima com segurança. quem vai não sabe se volta & cada vez mais a vida precisa de escolta. picos de audiências em horários nobres transformam caos em atração, sem solução & sem nenhuma direção que aponte uma saída. somos todos alvos de uma irresponsabilidade social enrustida com discursos de progresso & altas produtividades. há muito mais que uma guerra declarada. há um tempo vencido pela ambição, gerando corrupção & a falsificação de bons caracteres. na pratica, toda teoria é vazia. tudo é mercado & mercadoria expondo tristezas travestidas de alegrias. tudo caminha em aspectos de normalidades privando-nos da liberdade de sermos o que somos. então, o que seremos além do espanto & da indignação? até quando ficaremos reféns dos nossos direitos de ir & vir sem suspeitas do temor? pois é, meus queridos telespectadores, enquanto tudo caminha sem previsão de um futuro seguro, investe-se para melhorar as imagens e um know how de maquiagens deve ser aperfeiçoado para eliminar as imperfeições de cenas & cenários. outras ilusões. porque, daqui pra frente, a vida entre o bem & o mal terá melhor definição, a resolução agora é simplesmente digital.
zhô bertholini
08/09 dez. 2007
Poesia Tigresa
Vem com suas garras
fêmea impiedosa.
Deixa entre a dor e o prazer
a noite gritando em seus pêlos.
Vem tigresa, bicho do mato, princesa.
Mente se preciso for
nesta dança entre selva e cama.
Finca os dentes, rola no meu peito.
Diz que me ama, me engana
fera de olhos pequenos, portões.
Poesia ferina, siga-me
pelo faro atraiçoa-me, possua-me.
Toma estes tesouros tantos
nos porões da minha paixão.
Tigresa poesia
hoje é dia da caça, sou sua.
Jurema Barreto de Souza
Desertos
Ó papoila lembra-te!
Do bonito sorriso,
Meu ser inscrevi em forma de filha teu corpo no meu benzi!
À papoila neguei todo o amor!
Rezo neste jardim muitas papoilas hei-de querer plantar!
Planto nos cumes e nos vasos, nos baixios e nas serras e em toda a ponta de terra onde o sacrifício e o tormento não terão direito a entrar!
Se no meu zelo ou por esquecimento não te sorri!
Vê que sou diferente e muitas vezes choro sorrindo!
Com mil desculpas e embaraços já anuncio meu sossego.
Que não é de sério mas de farto e maroto!
Adeus papoila!
Tenho tanto que plantar!
Fernando Manuel – PORTUGAL
Polpa de Pedras
Abro o dicionário
e leio: lamela,
e faço dela
placa de versos,
chapa de palavras,
pensando prensar
metal cortante
da mais fina espessura,
que me talhe os termos,
estampe a nervura,
como instrumento de bravura,
para caçar magras migalhas
de poesia dura.
Ponti Pontedura
Canto de amor ao poema
Mas, não emudecerão
Meus pensamentos
Nem secará a tinta de sangue
Que goteja de minhas mãos.
O poema , em mim, inunda
Tal qual um rio
Feito de de lágrimas,
Águas claras...
De onde emerge vida.
Cecília Villanova
Auto-exílio
Deu vontade
De ir embora,
Bater a porta,
Fechá-la para sempre.
Sair
E não me deixar entrar.
Cecília Villanova
Intervalo
Nesta tarde em que o vento
vela pelo macio alarido
das chamas
queda-se abandonada
a equívoca equação
que domina o que é selvagem.
O que mais
senão o cansaço
para permitir esse breve momento
de impossível trégua?
Marcilio Medeiros
Borboleta
Uma borboleta na chuva aceita o perigo
de molhar as alvas asas de celulose
pela emoção insistente de recompor a beleza.
Marcilio Medeiros
Arcabouço
sua casa
é sua roupa
sua roupa
é sua bagagem
sua bagagem
fibra músculo carne
na casa
se mora
roupa
se usa
bagagem
se carrega
pressa
não interessa
para quem está vivo
feito arquivo
à beça
Josinei de Souza Arevalo
Matéria publicada em 01/09/2008
- Edição Número 109