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Tira-dúvidas de vocabulário

M. T. Piacentini


• ADREDE

Adrede significa "de propósito, para esse fim, intencionalmente, de caso pensado" e, sendo advérbio, não carece da terminação ‘mente’ que às vezes erroneamente lhe dão (*idéia adredemente concebida*). Em geral se usa o termo junto de um particípio:

- Tratou de implementar uma idéia adrede concebida com o intuito de desfalcar o patrimônio alheio.

- A primeira autoridade baixou a regulamentação para o preenchimento das vagas, enquanto a segunda ficou encarregada de sua execução material, inclusive com responsabilidades adrede definidas.

Falar ou escrever "adredemente" é o mesmo que dizer "de repentemente", como já ouvi. Está no mesmo nível do linguajar divertidíssimo de Odorico Paraguaçu, personagem da novela "O Bem-Amado", que abusava dos "entretantos" e "finalmentes".


• A PAR, AO PAR

- Não precisam me dar conhecimento dos fatos, já estou a par de tudo.

A par, além de "ciente, ao corrente de", quer dizer "lado a lado, junto, ao mesmo tempo", igual a: de par em par, (a) par e par, de par:

- Inspiração e suor caminham a par. Os feixes de trigo foram colocados a par.


Ao par é expressão usada coloquialmente como sinônimo de a par, mas de preferência deve ser reservada para significar, na área financeiro-comercial, que estão em equivalência a cotação de um título de crédito e o seu valor nominal:

- Com o novo pacote econômico o câmbio ficou ao par.


• CHAMPANHE

- Como nem todos podem brindar com o autêntico champanhe – feito na região de Champagne, no norte da França –, o jeito é investir em produtos mais democráticos: na Espanha festeja-se com cavas, na Itália com prossecos e no Brasil com os espumantes, que são os melhores vinhos produzidos no nosso país.


Como se trata de um tipo de vinho, é natural que se considere o termo masculino: "Gostamos deste (vinho) champanhe". Então por que se usa tanto a palavra champanhe no feminino? Por que aí se pressupõe um antecedente feminino: "Vamos estourar uma (garrafa de) champanhe", da mesma forma como se sabe que o substantivo alface é feminino ("a alface estava deliciosa") mas se pode dizer ‘o alface’ quando se trata de pé: "Comprei um (pé de) alface a vinte centavos".

Registre-se a variante champanha, palavra menos usada por ficar ainda mais estranho o seu emprego no masculino.


• MUÇULMANO, MAOMETANO, ISLAMITA

- Os pais de numerosos recém-nascidos muçulmanos da região colocaram em seus filhos o nome do inimigo público número um dos EUA.

- A província de Yala, no sul da Tailândia, tem grande número de islamitas.

- Os maometanos, naquela hora, trocaram suas atividades pela devoção.

Os três termos podem ser usados alternativamente para designar os devotos e seguidores de Maomé (570-632), profeta de Alá que fundou o maometismo, religião cujos ensinamentos estão contidos no Alcorão. A origem dos nomes é que é diversa: maometano se origina de "Maomé"; muçulmano vem do árabe muslim e tem o sentido de "submetido a Deus, fiel à religião"; islamita se reporta a "islã", nome que se dá ao mundo muçulmano, ao conjunto dos povos que professam o islamismo, que é outra denominação da religião maometana.

 

Maria Tereza de Queiroz Piacentini é catarinense, professora de Inglês e Português, revisora de textos e redatora de correspondência oficial há mais de vinte anos. Em 1989 foi responsável pela revisão gramatical da Constituição do Estado de Santa Catarina e no ano seguinte publicou artigos sobre questões vernáculas em diversos jornais. Retoma agora a publicação de colunas semanais com temas atualizados, em vista da experiência adquirida e das inúmeras consultas que lhe têm feito pessoas de todo o País depois que lançou o livro Só Vírgula - Método fácil em 20 lições (UFSCar, 1996, 164p.). Também teve publicados, em 1986, dez módulos da Instituição Técnica Programada - ITP, Português para Redação, edição esgotada.
Hompege: www.linguabrasil.com.br



Matéria publicada em 01/03/2003   - Edição Número 43