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Editorial:

O desejo de escrever já é um bom sinal, o caminho é longo e é preciso conhecer um pouco dos mestres e ler muito até encontrar a própria voz . Agora com a internet mais fácil ainda, pois os poetas estão bem mais perto: Carlos Drummond, Fernando Pessoa, Murilo Mendes, Paulo Leminski e tantos outros que também um dia começaram a procura da Poesia. Não ter pressa de ser perfeito, perfeição não existe. A Poesia é sempre nova, nem sempre ela está no poema, algumas vezes ela é vista e sentida e as palavras não conseguem capturá-las, mas o poeta continua tentando. E como são escorregadias e levadas as palavras, a Poesia nunca se acaba.

Jurema Barreto de Souza

 

Jura Secreta

não fosse essa jura secreta
ou se fosse e eu não falasse
o sal sob o teu vestido
o sangue no fluxo sagrado
sem nenhum segredo
esse relógio apontado pra lua
não fosse essa jura secreta
e se fosse e eu não dissesse
essa ostra no mar das suas coxas
como um conto do marquês de Sade
no silêncio logo depois do susto

Artur Gomes

 

 

TIGER

“Corre a tarde em minh'alma e conjecturo
que o tigre vocativo do meu verso
é um tigre de símbolos e sombras (...)"

Jorge Luis Borges, O outro tigre
(in O fazedor )

 

Theda Bara me olha
com olhos de quem
mata, e diz:

Desata-me.

Decifrado, o olhar
que espreitara antes
agora fuzila firme
e em cheio
contra o vidro
de um pesadelo.

(Só Borges enfrentara
o tigre antes.)

Felina, garras e boca
em perfeita dentição
são arremessos para lá
de ameaçadores
mesmo sob uma irretocada
e espessa vigília.

Joaquim Branco
www.joaquimbranco.cjb.net

 

 

Soprando vidro líquido na gôndola de marfim<

essa outra que descobri carregar dentro de mim
passou muitos anos soprando vidro líquido
e assistiu à fundação de Veneza
entoando cantigas em uma língua antiga  

ela tem inclinação para enigmas
me diz charadas quando estou dormindo
ela atravessa meu sonho em sua gôndola de marfim
completamente ausente a tocar seu bandolim

Lucila Nogueira
in “Desespero Blue”
Recife - Edições Bagaço -2003

 

 

Pode não ser sempre assim

Pode não ser sempre assim,
nas estremecidas imagens
as minhas palavras emudecidas em ti
digo-te alto sempre estás longe
não quero teus segmentos verbais
cheios de raciocínios isentos
quero ouvir o canto próprio
nestes corações afluentes
delirantes nas águas dos oceanos
quero-te sem certezas
neste instante, dentro das palavras
essas nem sempre seguras
mas certamente cordiais

Pode não ser sempre assim
nas lembranças de abraços apagados
as minhas cantigas ecoam no vento
digo-te cada letra bem devagar
não quero os teus silêncios
cheios de razões profundas e vagas
quero seguir caminhos impróprios
nestes dizeres de sangue
delirantes nos desapontamentos
neste instante não te quero comum
essas camadas de silêncios tortos
mas cheios de falares avulsos

Pode não ser sempre assim

Constança Lucas

 

 

AS ABELHAS DOS ALPES



“dorme, menino, dorme.
Morre, menino, morre.”
(Dorian Gray Caldas)

Ao díspar rei da soledade

as abelhas dos Alpes
prometeram
ideogramas incompletos
e hemisférios de infelicidade;

no réquiem da consciência,
murmuraram sérias, avista
o passatempo que foi vivo
(o teu peixinho cor de penitência),

e em teu nicho de egonauta inconseqüente
leite à beira de calor -não
o requebro desolado duma estrela,
nem de mãe o oco semblante.  

Alberto Malanca
Natal - RN

 

AS SALAS SEM FORA


“yo siento la nostalgia de mi infancia intranquila”
(Federico García Lorca)

Quanta neve caiu naquele inverno…

a luz sístole estranha, o pôr-do-sol
incerto. Meus olhos infância desalegre
balbuciando teu rosto sem sorriso
- eclipses d'intenso amar materno.

Na vazante da estréia da matéria
os passos lutavam contra o piso;
um ressaibo triunfo primitivo
os insetos se abrasando na lareira.

Aroma-espaço de alforrias
antigas nossas salas tugia
com suas promessas (lembra?)
debalde pátrias, tímpanos, núpcias…

salas sem fora e asfixia de festas!
O sol amnésia pura já descora,
o frio diz e aleija o meu caminho
- convém você na grama aqui bem perto:

muita neve está caindo nesse inverno

Alberto Malanca
Natal - RN

 

Entre Anjos


Ah! Dormentes pálpebras,ao lançar lágrimas
Embebidas e encharcadas do frescor das flores aos ventos,
Por si só chora leve de emoção aos anjos cantantes
Que encostam os lábios às faces nuas!
Corpos divinos que a alma semeia a geografia
Dos corações doces e frágeis,
A esperança volta a ser borboleta
E anjos brincando com outros anjos!

Fabíola Gobetti Leonardi

 

 

el preguntón descolocado


a L. Lamborghini

el tipo preguntó por los pájaros desposeídos
por las patas de esos pájaros
que se lavan en la fuente.

preguntó por los pájaros hambrientos
por el pico de esos pájaros
gritando 'no pasarán' en esta tierra piquetera.

por los pájaros poéticos
por las manos de esos pájaros
escribiendo papeles sin fe ni sudor.

el tipo preguntó por los pájaros
por el vuelo de esos pájaros
pichones que se embolsan la cara
para escuchar la voz de Dios.

preguntó por los pájaros
por los ojos de esos pájaros
al ver la íntima luz de una niña
vejada por el patrón.

por los pájaros
por las alas de esos pájaros
cuando sangra el ano de un niño
violado por la respetuosa santidad.

el tipo preguntó por los pájaros
y se fue volando.

Aldo Novelli


 

Mazurca

Se o tráfico não estressar,
se o vídeo não viciar,
se a poluição não intoxicar
e o amor não se degradar,
ainda veremos, ao luar,
o sorriso de Madalena,
que é meu lema,
a minha bandeira,
a paz derradeira,
meu melhor tema.

E todos os pés de moleques,
fios de ovos,
quindins e cocadas,
babas de moça
e sonhos de valsa,
glorificarão as baianas
fogosas, de umbanda,
que adoçam meu mundo
em Copacabana.

E o que fica desta didática garatujada,
são os gatafunhos do saber,
versos frágeis e sombrios
que nem são para se ler;
... e há tolos que ainda planejam feitos,
nesta mazurca existencial de inúteis glórias

Raul de Taunay
in “ Rosas da Infância ou da Estrela”
Rio de janeiro – 7letras- 2005

 

 

CANTO VINTE

Polêmica é a virada de teu rosto:
provoca a tensão entre o leste e o oeste,
na luta por estar onde for posto
o olhar vão e casual que me deste

no ocaso, e então se fez, voltado à aurora,
ciúmes do nascente, o esplendor
poente de antes, onde estou agora.
Por tua volta aguardo o sol se pôr.

Que te voltes, fitando a luz tardia,
e eu te veja assim mais iluminada.
Não te vás, que a noite não é vazia,

até a manhã que aguardo apaixonado,
e então verás não a forma sombria
contra a luz, mas meu rosto iluminado.

Diego Braga

 

 




Matéria publicada em 01/02/2007   - Edição Número 90