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Crase - Crase com nomes - Quanto à data M. T. Piacentini
Crase Entende-se por crase a fusão de vogais idênticas. Em Gramática Descritiva se utiliza o termo para designar a contração da preposição A com o artigo definido A /AS e com AQUILO, AQUELE e flexões, indicada pelo acento grave: à/às, àquele, àquilo. Como não é possível nos guiarmos pelo ouvido, pois tanto a (preposição, artigo ou pronome pessoal) quanto há ou à têm o mesmo som, a confusão está feita – para nós que falamos português, naturalmente. Das línguas neolatinas, a nossa é a única em que existe a assim denominada crase, pois o nosso artigo feminino perdeu o l do artigo la que o espanhol, o francês e o italiano conservaram do latim vulgar illa. E foi assim que ficamos com a mesma letra para designar a preposição e o artigo. O uso da crase ou do a craseado (chamemos assim, para facilitar) é de uso relativamente recente. Assim como os artigos, inexistentes no latim clássico, se originaram da necessidade de determinação e clareza na enunciação do pensamento, as preposições, de uso restrito em latim, se ampliaram no seu emprego e significação também por questões de clareza. Uma curiosidade: até meados do século XX não existia o acento grave. "É essa contração de vozes semelhantes notada pelo acento agudo: áquelle por a aquelle; á mão por a a mão" (E. C. Ribeiro, Serões Gramaticaes, 1890:87).
Crase e verbos O universo dos verbos que admitem à ou às após si é relativamente restrito, pois se trata apenas dos verbos transitivos indiretos e, entre estes, somente daqueles que exigem complemento regido da preposição a. Nas frases abaixo, de construção semelhante, vamos perceber o mesmo verbo seguido de complemento com e sem crase (neste último caso, o complemento constitui ou o sujeito ou o objeto direto da oração):
Abandonou a própria sorte quando resolveu fugir da bela vida que levava.
Vai a luta ser desigual? todos nos perguntamos.
Fica a escolha do novo modelo por conta do cliente.
Solicito acrescentar a lista de livros ao pacote que seguirá para a livraria.
A massagem relaxa e leva a mente ao aquietamento.
Favor anexar a folha 4 ao mapa estatístico.
Os sintomas incluem desmaios que podem levar a morte a um paciente debilitado.
Sugeriu a CUT que concentrássemos esforços nas fábricas e no campo. Um bom artifício para confirmar se em determinada circunstância o verbo pede o à craseado é trocar seu complemento feminino por um masculino, de preferência sinônimos. Onde se usa ao, deve-se usar à, pois um à (a a) é o feminino de um ao (a o) . Exemplos:
Crase com nomes Como já foi visto, a crase envolve, além de um substantivo feminino determinado, a regência da preposição a. Não só verbos (V. coluna Não Tropece na Língua nº 71), mas também nomes – substantivos, adjetivos e advérbios – regem ou se servem da preposição a para se relacionar com os substantivos ou outros termos regidos. Por exemplo: tem horror a lugares fechados; instrumento útil a tanta gente; paralelamente a isso... Se depois desses nomes intermediados pela preposição a for colocado um substantivo feminino determinado, teremos a a, o que implica uma crase e o uso do acento indicativo dessa crase/fusão. Nesses casos, valer-se do artifício da troca do substantivo feminino pelo masculino é muito bom para tirar a prova-dos-noves:
É possível fazer a associação de nomes a verbos. Há alguns nomes que apresentam o mesmo regime dos verbos de que derivam. É o caso, por exemplo, de obedecer, equivaler, referir-se e vincular-se:
Grande parte dos nomes que exigem a preposição a, contudo, derivam de verbos com diferente regência. Em geral, verbos transitivos diretos:
Para finalizar e variar um pouco, proponho ao leitor preencher as lacunas abaixo com à(s) ou ao(s), conforme o caso:
Confira as respostas corretas: 1. acesso à ponte/ao túnel 2. parecer favorável à cobrança /ao pagamento 3. em cumprimento à alínea/ao item 4. destinadas ao restauro/à recuperação 5. ligados à nobreza/ao clero 6. filiação ao sindicato/à associação 7. restrita aos supermercados / às bancas de revistas 8. sanção às obras /aos artefatos 9. amor ao belo/à arte 10. sujeitas à aprovação/ao consentimento 11. adesão à greve/ao motim 12. um cerco aos contrabandos/às fraudes 13. tendência geral à loucura/ao desvario 14. fuga aos deveres/às responsabilidades sociais 15. adeus ao velho casarão / à velha escola.
Quanto à data... "Quanto à data, será marcada oportunamente." Uso da crase com as locuções prepositivas junto a, relativamente a, quanto a etc. A locução prepositiva é composta de dois ou mais vocábulos, sendo o último deles uma preposição simples [ex.: ao lado de, de acordo com, frente a]. Sua função é a mesma da preposição. Só nos interessam agora as locuções que acabam na preposição a, pois estas exigem o acento indicativo de crase ou a craseado quando se ligam a um substantivo feminino determinado. Como são relativamente poucas as locuções que se enquadram nesta categoria, pode-se memorizá-las para evitar os condenáveis erros de crase:
O uso de junto a em frases desse tipo (e outras como: solicitar providências junto a, conseguir/obter/acertar/fazer pedidos junto a alguém) é condenado por puristas e ainda não se registra em dicionários. Contudo, não há como negar a sua freqüência em artigos de jornais, revistas e correspondência em geral. Estritamente falando, junto a significa somente "perto, próximo, chegado; juntamente; adido".
Devo advertir que o uso de "devido a" não tem o "respaldo dos autores cuidadosos", no dizer do professor A. da Gama Kury, porque a locução surgiu da "masculinização" do particípio do verbo dever, que concordava normalmente com o substantivo referente: "ausência devida a problemas pessoais; problemas devidos ao excesso de chuvas". Já a opinião de Celso Luft é a seguinte: "Os puristas não gostam desta locução e acham que devido deve ser usado apenas como particípio: o acidente foi devido (= deveu-se) a um descuido. O uso corrente da locução, claro, desautoriza os puristas". Em todo caso, observe-se a concordância quando devido é realmente particípio e atente-se sempre para a colocação do acento indicativo de crase diante de substantivo feminino, dada a presença da preposição a nos dois casos:
Que não se faça confusão com a locução vista acima: dada, sim, é um particípio; não rege preposição, portanto não forma uma locução, mas concorda com o substantivo seqüente: Dado o mau tempo / dados os raios e trovões / dada a chuva / dadas as condições de tempo, não fomos à praia.
Também incluímos aqui a preposição "até", que, ao contrário das outras preposições simples, pode vir seguida da preposição a quando rege substantivo acompanhado de artigo: Veio até a porta ou veio até à porta; veio até o portão ou veio até ao portão [V. Não Tropece na Língua nº 4 – Crase com Horas]. Sobre a autora: Maria Tereza de Queiroz Piacentini
é catarinense, professora de Inglês
e Português, revisora de textos e redatora de correspondência oficial há mais
de vinte anos. Em 1989 foi responsável pela revisão gramatical da Constituição
do Estado de Santa Catarina e no ano seguinte publicou artigos sobre questões
vernáculas em diversos jornais. Retoma agora a publicação de colunas semanais
com temas atualizados, em vista da experiência adquirida e das inúmeras consultas
que lhe têm feito pessoas de todo o País depois que lançou o livro Só Vírgula
- Método fácil em 20 lições (UFSCar, 1996, 164p.). Também teve publicados,
em 1986, dez módulos da Instituição Técnica Programada - ITP, Português para
Redação, edição esgotada.
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