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Entrevista de Oswald de Andrade a Flávio Porto Luiz Edmundo Alves
Não foi difícil achar Oswald de Andrade; pelo telefone mesmo, disse-lhe do motivo pelo qual pretendia avistá-lo. Trazia uma recomendação de Paulo Mendes Campos e gostaria de fazer uma entrevista. Ponderei-lhe que não tomaria muito de seu tempo. Já tinha as perguntas formuladas e, além do mais, (isso não lhe disse) ia com as idéias imbuídas num tópico do jornal Última Hora, publicado com certo destaque semanas antes de minha visita a São Paulo, onde li: "Deu cupim na cabeça do velhinho". O velhinho era Oswald de Andrade. Entrei no apartamento de Oswald (agora já o chamo assim), e encontrei-o bonachão em meio a alguns papéis escritos, esparramado numa poltrona. Sente-se e não me dê recomendação alguma; os jovens não precisam de recomendação para falar comigo, disse-me ele, deixando-me logo à vontade. Conversamos longamente sobre coisas boas e ruins, e logo percebi que havia dado cupim era na cabeça de quem havia redigido a nota de Última Hora, pois o "irreverente" Oswald de Andrade era aquele mesmo homem inteligente e espirituoso de quem tantas vezes ouvi falar na casa saudosa casa de Álvaro Moreyra. Falou-me da desesperança literária que o assaltou um dia. "Durante algum tempo no Brasil", contava-me, "a ausência de valores tornou-se de uma maneira tal, que quase suicidei-me literariamente. Mais tarde melhorou", prosseguiu, "surgiram elementos realmente de valor, apareceu poesia de Vinícius de Moraes, surgiu Paulo Mendes de Campo. Sérgio Milliet continuava a ser o maior informante do Brasil, produto de seus esforços como estudioso de tudo e de todos, e também fez versos muito bons por sinal. Havia ainda Cassiano Ricardo, Rachel de Queiroz e tantos outros que me ressuscitaram para a literatura, pois continuavam a produzir coisas boas, disse ele, desta vez já afastado de seu trabalho e com todas as atenções para o que me dizia. Não me refiz totalmente, porque o número de "picaretas" na imprensa e na literatura era tão grande, que seu analfabetismo fazia-me esquecer esses que, ainda, achava bons. Um grande número de mulheres invadiu a literatura nacional, na sua maioria 'semi-analfabetas' fazendo movimento estéril. Depois sim, melhorou e muito. Até mesmo nos menores setores, surgiram e continuam surgindo valores positivos." E aí desandou a citar nomes. Falou demoradamente e com grande entusiasmo de Millor Fernandes, o Vão Gogo, dizendo da sua capacidade de criar coisas novas, e todas boas. Comentou "Uma mulher em três atos", peça teatral de autoria de Millor, onde diz ter encontrado finalmente quem não escrevesse "bobagens". Demorou-se também falando sobre Tiago de Mello, em quem vê um bom poeta, que, apesar da bagagem literária que já possui, tem ainda capacidade de escrever muito mais, com tendências a melhorar. Falou sobre Geir Campos "um grande estudioso", e deteve-se para dizer da grande importância de Paulo Mendes de Campos. "Paulinho faz tudo direito. Crônica, verso, ensaio, tradução e, se derem cinema para ele, garanto que vai fazer melhor que muito italiano idiota que anda por aí". "Quanto a vocês", dizia isso referindo-se a mim, "vocês todos que iniciaram há pouco tempo a escrever, têm uma responsabilidade muito grande. No meu tempo, eu escrevia para um país de analfabetos, mas hoje todo mundo lê, todos se interessam pelo que se escreve por aí, em suma, o público está muito mais esclarecido, e há um número muito maior de pessoas escrevendo bem. Acredito que muitos vençam, muitos dessa novíssima geração." E citou Darwin Brandão e Carlos de Oliveira como repórteres. Maria Karam como pintora e Millor Fernandes (qualquer setor). Às seis horas da tarde tinha um compromisso para jantar em Santos entreguei-lhe as perguntas, que foram respondidas prontamente, e surgiu o clássico cafezinho acompanhado de uma verdadeira bateria de remédios que, por mais amargos que fossem, deviam saber-lhe doces, dado o carinho de quem os trouxera, esse monstro de simpatia que é a Sra. Oswald de Andrade. Um a um, ele foi tomando-os e comentou com um sorriso: "Tem gente à beça torcendo para que eu morra, mas os médicos estão de safadeza com eles. Cada dia eles inventam um negócio novo e, hoje em dia, eu estou quase perfeito". A Sra. Andrade retirou-se sorrindo, e afirmando: "Esteja tranqüilo Oswald, você não morrerá nunca". No que, indubitavelmente, tem razão.
Entrevista de Oswald de Andrade a Flávio Porto
Poesias de Oswald de Andrade
Acabei de jantar um excelente jantar
Bestão querido
Granada é triste sem ti
Mi pensamiento hacia Medina del Campo
Que alegria teu rádio
Que distância!
São João del Rei
Oswald de Andrade (1890-1954) foi uma das vozes renovadoras da poesia brasileira do séc. XX. O poeta que fundou uma linguagem transgressora, buscando libertar o verso das amarras da falsa erudição, e, ainda por cima, uma falsa erudição importada da Europa. E foi na Europa, numa janela qualquer de Paris, que ele descobriu o Brasil e suas peculiaridades, seus fantasmas, suas metáforas, suas cores, sua língua. O mais moderno dos modernistas fundiu poesia e prosa, riu de si e de seus patrícios, criando para a poesia uma nova via onde a linguagem emergiu como o elemento próprio e fundamental. O texto e a entrevista abaixo foram realizados por Flávio Porto em 1954 para a revista paulista de cultura Sombra. Agradecemos a especial atenção de Cláudio Giordano, editor da Revista Bibliográfica e Cultural a autorização para reproduzir este material. Luiz Edmundo Alves
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