As escolhas, porque é preciso fazê-las,estão por toda a parte, nas pequenas e grandes atitudes da vida. A Poesia é a grande escolha, o grande risco de que nos conheçam pelo avesso. Esperamos que cada vez mais os poetas se conheçam, se encontrem e criem novos redutos onde a Poesia possa ser cultivada e partilhada.
Jurema Barrreto de Souza
Resto de mundo
só nos resta, como Plano futuro
uma profunda utopia
digna dos deuses, digna de nos
digamos a verdade...
[e que os outros nos perdoem]
mais só falta agora
ou tudo outra vez
ou um mundo inteiramente novo
Carlos Henrique Sanmartin
Ser
Sou como o mar
imenso e profundo
a leste sou quente e brava
a oeste sou fria e perigosa
ao norte sou morna e triste
ao sul sou alegre e transparente.
Ou serei o contrário de tudo isso?
Vítima de uma geografia esdrúxula.
Sou como o mar
como o mar eu ofereço as minhas bordas
a quem quiser se divertir
mas poucos se aventuram a ir
nas minhas profundezas
a escutar a sereia que canta em mim
Ou será o contrário de tudo isso?
Sou como o mar
que abriga inúmeros seres
que pode tragar alguém mais ousado
mas que para viver precisa da água dos rios
da doce água dos rios pequenos e grandes
que se juntam para abastecê-lo
Ou seria o reverso desse verso?
Sou como o mar
plácido mar
mas... não um mar em português
sou um mar em francês
- no feminino
É assim que eu sou.
Sou?
Num seminário de responsabilidade social tão típico
nesta época irresponsável, várias figuras debatiam
sobre a fome, franzindo a testa, apontando imagens
de crianças subnutridas num telão, definindo
estratégias de ajuda ao menor. Que tal uma horta
comunitária em cada comunidade carente? Uma campanha
publicitária maciça comoveria a população? Munidos
de notebooks e inconformados com o ar condicionado
demasiado frio, o público parecia inquieto. Um hotel
cinco estrelas era o cenário, com intervalos no
palavrório morno a cada duas horas para um farto
coffee break, além de almoços faustosos e a promessa
de uma boa farra de confraternização ao anoitecer.
Refletindo sobre a pobreza dos irmãos sem sorte, fui
um dos convidados privilegiados desse risível
evento. Entediado, bebi inúmeros cafés para não
cochilar e me senti uma pulga. O fato é que o homem
acredita que a caridade e a filantropia são pura
tolice, coisas de solteironas ou senhoras
aposentadas.
É outra constatação de uma vida cada vez mais vazia
de significado. Se no passado, o homem refletia-se
como obra-prima da natureza, o favorito dos deuses,
hoje se verifica que somos somente uma aberração
desses mesmos deuses. Os nossos olhos e pensamentos
não enxergam guerras, dor, sofrimento, violência,
doença ou solidariedade, apenas fingimos bondade
porque somos ensinados que o vilão não come a
mocinha e morre no final do filme. Não há como negar
que o homem é ridículo e estúpido, encantado com
praças de alimentação em shopping-centers, carros
potentes, amantes ordinários (aqueles de músculos de
academia ou louras de seios de silicone), futebol,
reality shows, interferências na vida alheia. Tudo
que o mais irracional dos animais não se interessa.
Do elefante a abelha, os bichos seguem sem
desperdícios e imbecilidades, comendo o necessário
para sobreviver, respeitando o habitat natural,
transando sem neuroses. Já o homem não se preocupa
pela sua própria espécie, polui rios e mares, mata
por ciúmes ou por uns trocados e se acha superior
por acumular títulos universitários, quando na
realidade passa a maior parte da existência
trabalhando como escravo para pagar contas impostas
por supostos espertinhos. Vivemos para uma sucessão
de asneiras, muitas das quais tão idiotas que fariam
vergonha se tivéssemos vergonha na cara. Como bem
disse Morpheu em Matrix, “o homem é o câncer da
terra”.
Nunca conseguimos nos imaginar fora do centro das
atenções, sempre alimentamos a importância das
nossas desimportâncias. Quem lembra de qualquer
invejável empresário de três décadas atrás? O seu
túmulo deve estar sem uma flor. Somos ocos e
patéticos, sem capacidade para distinguir entre a
aparência e a substância. Acreditamos que temos uma
certa soberania se somos engenheiros, médicos,
gerentes de banco, top models ou escritores. São
apenas talentos vazios sem sinais de sensibilidade.
Muitos sobrevivendo a base de tramóias e truques,
fantasiados de aparência honrada. Por exemplo, não é
possível conversar mais de dez minutos com 90% dos
advogados ou políticos, o discurso é cansativo e
parvo. Porque o direito e a politicagem, entre
outras profissões – digo com conhecimento de causa,
afinal meu pai era advogado e trabalhei com alguns
políticos-, são apenas uns arsenais de frases ocas e
cínicas, sem nenhuma preocupação com a verdade e a
justiça. Vestem-se de atores de maior ou menor
talento, não dando qualquer declaração lógica,
experts em demagogia.
Os homossexuais, que poderiam ser a salvação da
fatigada espécie humana, pois destoam do batido
ritual familiar católico-burguês, perdem-se na
mediocridade consumista. Sei que é politicamente
incorreto, mas essa fama do gay como personagem
otimista, amigo e criativo é pura bazófia. O
surrealista é que as mulheres amam os gays, vivem
delirando por bichonas sem camisa estrelas de
novelas de tevê. Simplesmente porque a maioria das
moças é casada com trogloditas ou sabe que nunca
terá a oportunidade de concretizar o desejo infantil
de laçar um belo e sensível garanhão para fazer
inveja as amigas. O meu simplório motorista
filosofou um dia desses, “Sêo Tonho, quem gosta de
pau é veado, as mulheres querem é segurança
material, o macho bobo que pague as suas contas ou
faça figura de marido para que elas possam
demonstrar a respeitabilidade que a sociedade pede”.
Concordo plenamente. E você, meu caro leitor?
O meu lado cigano, meio fora-da-lei, vê a
civilização como degenerada e demente. Mesmo quando
honesto, o que é raro, o homem vive de rotinas
mecânicas, sensações vazias ou fé no ilógico. Tudo é
uma troca de favores, uma impostura radical. A
bagagem mental dos intelectuais e suas teses
merecedoras de serem jogadas no lixo, me fazem rir.
Os religiosos e a sua consciência de Deus,
multiplicam seu pão particular sem dó nem piedade,
sem qualquer compaixão. Nunca conheci um humano
completamente honrado, nem mesmo nos muitos livros
que li. Estive dias atrás na comunidade de Pitanga
dos Palmares, no Recôncavo baiano, pós dias de
chuvas torrenciais, e deparei com 23 famílias
desabrigadas, sem lenço nem documento, incluindo no
lote uma senhora grávida de 8 meses, descalça,
faminta e com o sorriso mais lindo do mundo.
Estavam alojadas numa creche abandonada, úmida e
suja, sem portas ou janelas. Não receberam qualquer
ajuda dos bonzinhos de plantão, dos beatos de araque
ou dos caça votos. Vendo situações como essa, é que
compreendo como as nossas depressões e a nossa
gulodice material são dignas de uma boa surra para
tomar juízo, como dizia minha finada avó.
O homem trai, mente e é um fardo de erros. Faça uma
viagem no túnel do tempo e verá que os maiores
ídolos, de Napoleão a Elvis Presley, de Cleópatra a
evita Perón, não passaram de charlatões. É que o
homem camufla a história, adota o que é falso e
desacredita na essência das coisas. Ninguém coloca
na cabeça que a vida é curta, curtíssima, e quem o
faz aproveita seus poucos anos levando vantagem.
Amargura e pessimismo? Não creio, tenho um
relacionamento simpático e sereno com os meus
companheiros de cotidiano. E amo a quase impossível
alegria de viver! Mas aproveito os meus dias neste
planeta não como herói, talvez como figurante de uma
ópera bufa, com momentos de felicidade observando o
mar, cuidando de plantas, ouvindo o silêncio e
outras coisas simples da vida. Sei que os
respeitáveis deveriam ser os doidos, os
inconformados, os bêbados, os poetas, os
marginalizados, os aventureiros. Sou consciente de
que não passo de um inseto, como toda a maluca raça
humana. Não transmitimos a dengue, mas enfermidades
piores, as d´alma. Felizmente tudo se acaba a
qualquer momento, final necessário que jamais
poderemos evitar, nem mesmo acumulando milhões de
dólares em contas na Suiça.
Antonio Júnior
Salvador - Bahia
Escritor e Jornalista. Autor de ArtePalavra –
Conversas no Velho Mundo (2003). antonio_junior2@yahoo.com
seu olho zarcão
um morango voluntário
volitivo de ver
outro
olho montês
adriana zapparoli
nua alma abissal
num lamento abscesso
acitrinado no sabor