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Verbo haver impessoal - Verbo fazer impessoal

M. T. Piacentini


Verbo haver impessoal

1. Há – houve casos

Emprega-se o verbo haver como impessoal – isto é, sempre na 3ª pessoa do singular – quando tem o sentido de existir. Este é um dos casos de "oração sem sujeito". Exatamente por isso o verbo haver fica neutro, impessoal, pois ele não tem um sujeito com quem concordar. Os substantivos que complementam o verbo haver são considerados seu objeto direto. Assim, para atender aos preceitos da língua culta, é preciso observar a forma no singular quando o verbo haver está conjugado nos tempos pretéritos ou futuros (no presente dificilmente se cometeria um engano: ninguém diria * hão outros casos). Exemplos:

  • Não / haverá / haveria soluções a curto prazo.
  • Não mudaremos o país se não houver transformações profundas na Educação Básica.
  • Se houvesse mais justiça, haveria menos descontentes.
  • Para que haja menos neuroses é preciso reeducar as pessoas.
  • Vamos apurar todas as irregularidades que houver, disse o relator da CPI.

As mesmas frases, se construídas com existir, teriam o verbo flexionado de acordo com o substantivo, que aí é considerado o sujeito do verbo existir: Não existem soluções a curto prazo / se existisse mais justiça, existiriam menos descontentes / para que existam menos neuroses / as irregularidades que existirem etc. Em algumas situações também se pode substituir ‘haver’ por outros verbos:

  • Se houver / ocorrerem problemas, teremos de devolver o dinheiro.
  • Não é natural que haja / aconteçam tantos distúrbios.
  • Às vezes, havia / encontravam-se vasilhas de cerâmica aos pés dos mortos.
2. Há nas locuções verbais

Quando o verbo haver no sentido de existir faz parte de uma locução verbal, ele transfere sua impessoalidade ao verbo auxiliar dessa locução, que permanece, por isso, no singular:

  • Deve haver outras técnicas para melhorar o cultivo.
  • Pelas informações recebidas, está novamente havendo discussões clandestinas.
  • Está havendo coisas de arrepiar os cabelos. [Porém: estão acontecendo coisas]
  • Não sei se chegou a haver sessões no Senado naquele período.
    3. Há – tem

    A professora S. C. M. B., de São Paulo, consulta sobre o verbo ter quando utilizado como haver. Este é um uso bastante coloquial. Deve ser evitado em linguagem científica ou oficial. Mas como é muito comum no Brasil (basta ver os versos de Chico Buarque: "Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu"), é bom saber que ele segue o mesmo padrão de haver – não flexiona no plural, portanto:

    • Na festa tinha mais mulheres que homens.
    • Tem pessoas assim em todo lugar.
    • Teve ocasiões em que me senti frustrado.
    • De segunda a sexta tem notícias quentes para você.

       

      Verbo fazer impessoal

      4. Faz

      Da mesma forma que ‘haver’, o verbo fazer conserva-se na 3ª pessoa de singular quando indica TEMPO TRANSCORRIDO ou FENÔMENO METEOROLÓGICO. Estando o verbo fazer na função de verbo impessoal (sem sujeito), deve também assumir a forma impessoal o verbo auxiliar que porventura o acompanhar:

      • Faz dois dias que não chove. [Não caia no erro comum de dizer *Fazem dois dias]
      • Quando saí da cidade, fazia 40 graus à sombra.
      • Vai fazer cinco anos que eles estão noivos.
      • Poderá fazer três anos sem que ele saia do sanatório.
      • Dizem que faz 10 meses estão se preparando para o concurso.
      • Em julho fez uns dias de verão.
      5. Há (atrás) – faz

      Quando se quer indicar tempo transcorrido, emprega-se também impessoalmente o verbo haver, tanto quanto o verbo fazer:

      • / faz dois anos (que) não o vejo.

      • Inventada em 1851, a máquina de costura de Isaac Singer domina o mercado / faz 150 anos.

      • Há / faz um século, havia cerca de 80 mil tigres no mundo.

      Uma outra opção para indicar um tempo passado é usar a partícula atrás. Nesse caso, porém, é preciso cuidado para que não apareçam ao mesmo tempo na frase e atrás. É uma redundância deselegante e errônea (até podemos falar "Há dias atrás" como um reforço, uma vez que o ouvido pode captar mal o som /a/ inicial), mas deve ser policiada na linguagem escrita. Então, use um ou outro termo, como por exemplo:

      • A aparição da cerâmica na Amazônia data de 3.000 anos atrás.

      • Essa civilização desapareceu há 200 anos [ou: desapareceu 200 anos atrás].

      • Até pouco tempo atrás não se pensava nesse tipo de cartilha.

      • Até há pouco tempo os professores eletrônicos eram inacessíveis à maioria.

      • Exibia uma vasta cabeleira até dois anos atrás, mas o vi há um mês sem um fio de cabelo.

      6. Há – havia / fazia

      Um outro problema com que se defrontam os redatores é o uso de havia ou fazia nesse tipo de construção. Está se generalizando o emprego de em qualquer situação de tempo transcorrido, mas é preciso lembrar que se refere a uma data no passado tendo como referência o dia de hoje. Quando se quer marcar um tempo transcorrido antes de outra ação passada, deve-se usar havia ou fazia (este fica mais espontâneo). Vejamos alguns casos:

      • Em 1866, o tigreiro Wenceslau tinha 18 anos e estava casado havia sete meses.

      • Fazia tempo que eu não pilotava algo tão rápido.

      • O cabo Cedric Tornay tinha se irritado depois de receber uma advertência e de fato estava chefiando o grupo responsável pela segurança do Papa havia sete meses, desde que o comandante anterior se aposentara.

      • Criticou-se a decisão de entregar o Boeing ao comando de um piloto que estava inativo havia vários meses.

      • Havia / fazia uma semana que estava soterrado quando o encontraram.

      7.  A – passado e futuro

      Por fim, uma questão levantada por jornalista radicada em Roma. Diz ela, sabiamente, que na frase "A um mês do acidente, J. ainda não recobrara os sentidos um mês do acidente, J. ainda não recobrara os sentidos um mês do acidente, J. ainda não recobrara os sentidos", a partícula grifada é a mesmo – este a é preposição –, e não ‘há’ do verbo haver, apesar de ligado a tempo passado. É isso mesmo. Para tirar a prova, basta ver que é impossível trocar a por faz, como acontece com ‘há’. Ao contrário, o a pode ser substituído pela preposição após ou pela locução depois de.

      Também são conhecidas as combinações de...a e a...de para exprimir distância no tempo ou espaço: de um tempo/lugar a outro, a um certo tempo/espaço de... Exemplos:

      • A cem anos do nascimento de Le Corbusier (1887), uma linha de tensão mantém seu nome entre a modernidade radical e o ideário humanista.

      • Hoje, a 30 anos da morte do mais original dos prosadores brasileiros, tal frase adquire um tom irônico.

      Na indicação de um tempo que transcorre de hoje para o futuro a preposição A pode vir ou não acompanhada do termo ‘daqui’:

      • Viajaremos daqui a dois dias.

      • Estamos a uma semana do festival e nada foi feito.

      • Embora estejamos ainda a seis meses da realização do evento, vimos convidá-la a tomar parte do corpo de jurados.

      • De fato, a 40 dias do campeonato e com esse despreparo, não se pode esperar o título.

      • Daqui a pouco até eu me sentirei um peixe fora d’água.

       

      Sobre a autora:

      Maria Tereza de Queiroz Piacentini é catarinense, professora de Inglês e Português, revisora de textos e redatora de correspondência oficial há mais de vinte anos. Em 1989 foi responsável pela revisão gramatical da Constituição do Estado de Santa Catarina e no ano seguinte publicou artigos sobre questões vernáculas em diversos jornais. Retoma agora a publicação de colunas semanais com temas atualizados, em vista da experiência adquirida e das inúmeras consultas que lhe têm feito pessoas de todo o País depois que lançou o livro Só Vírgula - Método fácil em 20 lições (UFSCar, 1996, 164p.). Também teve publicados, em 1986, dez módulos da Instituição Técnica Programada - ITP, Português para Redação, edição esgotada.
      Hompege: www.linguabrasil.com.br



      Matéria publicada em 01/01/2002   - Edição Número 29