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Verbo haver impessoal - Verbo fazer impessoal M. T. Piacentini
Verbo haver impessoal
Emprega-se o verbo haver como impessoal – isto é, sempre na 3ª pessoa do singular – quando tem o sentido de existir. Este é um dos casos de "oração sem sujeito". Exatamente por isso o verbo haver fica neutro, impessoal, pois ele não tem um sujeito com quem concordar. Os substantivos que complementam o verbo haver são considerados seu objeto direto. Assim, para atender aos preceitos da língua culta, é preciso observar a forma no singular quando o verbo haver está conjugado nos tempos pretéritos ou futuros (no presente dificilmente se cometeria um engano: ninguém diria * hão outros casos). Exemplos:
As mesmas frases, se construídas com existir, teriam o verbo flexionado de acordo com o substantivo, que aí é considerado o sujeito do verbo existir: Não existem soluções a curto prazo / se existisse mais justiça, existiriam menos descontentes / para que existam menos neuroses / as irregularidades que existirem etc. Em algumas situações também se pode substituir ‘haver’ por outros verbos:
2. Hánas locuções verbais Quando o verbo haver no sentido de existir faz parte de uma locução verbal, ele transfere sua impessoalidade ao verbo auxiliar dessa locução, que permanece, por isso, no singular:
3. Há – tem A professora S. C. M. B., de São Paulo, consulta sobre o verbo ter quando utilizado como haver. Este é um uso bastante coloquial. Deve ser evitado em linguagem científica ou oficial. Mas como é muito comum no Brasil (basta ver os versos de Chico Buarque: "Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu"), é bom saber que ele segue o mesmo padrão de haver – não flexiona no plural, portanto:
Verbo fazer impessoal
Da mesma forma que ‘haver’, o verbo fazer conserva-se na 3ª pessoa de singular quando indica TEMPO TRANSCORRIDO ou FENÔMENO METEOROLÓGICO. Estando o verbo fazer na função de verbo impessoal (sem sujeito), deve também assumir a forma impessoal o verbo auxiliar que porventura o acompanhar:
5. Há (atrás) – faz Quando se quer indicar tempo transcorrido, emprega-se também impessoalmente o verbo haver, tanto quanto o verbo fazer:
Inventada em 1851, a máquina de costura de Isaac Singer domina o mercado há / faz 150 anos. Há / faz Uma outra opção para indicar um tempo passado é usar a partícula atrás. Nesse caso, porém, é preciso cuidado para que não apareçam ao mesmo tempo na frase há e atrás. É uma redundância deselegante e errônea (até podemos falar "Há dias atrás" como um reforço, uma vez que o ouvido pode captar mal o som /a/ inicial), mas deve ser policiada na linguagem escrita. Então, use um ou outro termo, como por exemplo:
6. Há – havia / fazia Um outro problema com que se defrontam os redatores é o uso de havia ou fazia nesse tipo de construção. Está se generalizando o emprego de há em qualquer situação de tempo transcorrido, mas é preciso lembrar que há se refere a uma data no passado tendo como referência o dia de hoje. Quando se quer marcar um tempo transcorrido antes de outra ação passada, deve-se usar havia ou fazia (este fica mais espontâneo). Vejamos alguns casos:
7. A – passado e futuro Por fim, uma questão levantada por jornalista radicada em Roma. Diz ela, sabiamente, que na frase "A um mês do acidente, J. ainda não recobrara os sentidos um mês do acidente, J. ainda não recobrara os sentidos um mês do acidente, J. ainda não recobrara os sentidos", a partícula grifada é a mesmo – este a é preposição –, e não ‘há’ do verbo haver, apesar de ligado a tempo passado. É isso mesmo. Para tirar a prova, basta ver que é impossível trocar a por faz, como acontece com ‘há’. Ao contrário, o a pode ser substituído pela preposição após ou pela locução depois de. Também são conhecidas as combinações de...a e a...de para exprimir distância no tempo ou espaço: de um tempo/lugar a outro, a um certo tempo/espaço de... Exemplos:
Hoje, a 30 anos da morte do mais original dos prosadores brasileiros, tal frase adquire um tom irônico. Na indicação de um tempo que transcorre de hoje para o futuro a preposição A pode vir ou não acompanhada do termo ‘daqui’:
Sobre a autora: Maria
Tereza de Queiroz Piacentini
é catarinense, professora de Inglês e Português, revisora de textos e
redatora de correspondência oficial há mais de vinte anos. Em 1989 foi responsável
pela revisão gramatical da Constituição do Estado de Santa Catarina
e no ano seguinte publicou artigos sobre questões vernáculas em diversos
jornais. Retoma agora a publicação de colunas semanais com temas atualizados,
em vista da experiência adquirida e das inúmeras consultas que lhe têm feito
pessoas de todo o País depois que lançou o livro Só Vírgula - Método fácil
em 20 lições (UFSCar, 1996, 164p.). Também teve publicados, em 1986, dez
módulos da Instituição Técnica Programada - ITP, Português para Redação,
edição esgotada.
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