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Faroeste Caboclo André Luís Zanetti
A impressionante adaptabilidade da odisséia de João de Santo Cristo aos dias atuais Parece até que Renato Russo brincava de Nostradamus quando escreveu esta letra. Para os que a conhecem, é possível observar quantas crianças hoje só pensam em ser bandidos, quer por nutrir um sentimento de ódio contra os tiros de soldados, que eliminam bandidos, mas que por vezes, assassinam inocentes, quer por sentirem-se diferentes, não encontrando um lugar na sociedade, jogados à marginalidade, vitimados pela discriminação por sua cor, credo ou falta de oportunidades dignas. Muitas vezes, o principal veículo de formação do caráter desses pequenos cidadãos é a televisão, onde vemos que nesse país, lugar melhor não há do que Brasília, pois é exatamente onde o faroeste caboclo assume proporções hollywoodianas. É fácil fazer uma analogia entre os roubos às diligências dos clássicos filmes de “bang-bang”, que eram planejados antes de sua execução, com os sumiços e desvios de verbas públicas, isto sem falar nos mensalões e mensalinhos, anões e suas máfias, tudo também devidamente planejado. Cômica seria, se trágica não fosse, a atuação de nossos xerifes, que dias atrás tiveram um de seus representantes proferindo a célebre declaração: “Eu quero saber quem roubou o ladrão”. “Meus Deus, mas que cidade linda. No ano novo eu começo a trabalhar...”; talvez essa seja a primeira idéia dos retirantes nordestinos que emigram para as regiões Sul e Sudeste, fugindo da seca, miséria e fome. Mal sabem esses pobres lutadores miseráveis que a explosão demográfica que também castiga essas regiões com desemprego, miséria e fome, fatalmente, na maioria dos casos, os conduzirá ao seu triste fim, que é entrincheirar-se sob pontes e viadutos, com a difícil missão de ajudar a tornar as grandes cidades menos sujas com suas atividades (coleta de material reciclável). Mas como isso será possível, se para isso esses próprios “ativistas da limpeza” tendem a acumular lixo em grandes quantidades por longos períodos? E nessa história, surge sempre um Santo Cristo que acaba por conhecer gente interessante, com histórias interessantes e negócios interessantes. E a falta de perspectivas, a ineficiência do Estado em suas ações sociais e o abandono à própria sorte, instigam nosso Santo Cristo real a fazer parte desses negócios interessantes, que todos sabemos, são caminhos sem volta. Seus elaborados planos podem levá-lo ao pseudo-sucesso em curto espaço de tempo, mas nessa trilha, por certo haverá o momento do duelo fatídico entre Santo Cristo e Geremias, normalmente chefe ou comandado de facção concorrente, ou até mesmo contra os tiros de soldados que falamos no início desta ciranda sinistra. Renato Russo, falecido em 25/10/1996, poeta,
músico e vidente, talvez, se vivo estivesse, escreveria uma canção falando
sobre a transposição do rio São Francisco, que se bem administrada, sem desvios
ou desmandos, pode levar dignidade e um fio de esperança para um povo de
lutadores, que partem de suas terras para evitar uma guerra inglória contra um
inimigo atroz: a fome. A letra completa da música pode ser conferida
em: Faroeste Caboclo -
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