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O eu insano: a distorção da narrativa - em ''Angústia'', de Graciliano Ramos

Carlos Alberto Rodrigues Pereira


Resumo: Este trabalho visa a destacar, no romance Angústia (1936), de Graciliano Ramos, o papel fundamental de elementos da subjetividade do narrador na composição da narrativa, como uma das razões pelas quais este livro pode ser incluído entre os mais representativos da moderna literatura brasileira.

1. Introdução

Considerada por Afrânio Coutinho (1997) a obra que insere Graciliano Ramos “bem no cerne do romance moderno” (p.404), em Angústia (1936), logo no primeiro parágrafo, Luís da Silva, protagonista-narrador do que se irá contar, desvenda a perspectiva que lhe cabe dos fatos — pretéritos em relação à própria vida, presentes em sua consciência e em seu discurso, futuros quanto à narrativa a se construir. “Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios” (p.05).

Nas enunciações seguintes, o narrador revela a aversão que lhe provocam, indiferentemente, tanto os mendigos — como o que ele fora um dia — quanto certos membros da camada intelectual, com os quais se identifica, embora não pertença ao mesmo meio. Importa observar, entretanto, que para Luís da Silva, enquanto os vagabundos são reprováveis por sua arrogância, como os verbos de aspecto impositivo demonstram: “Parece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa”(Idem); por outro lado, aqueles que freqüentam o ambiente dos supostos literatos são condenáveis por sua resignação: “Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. (...) E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da Rua da Lama” (Idem). Existe, portanto, na maneira como o narrador enxerga o mundo à sua volta, uma estranha ambigüidade, decorrente de suas próprias vicissitudes, que certamente se transferem para os domínios do texto.

Encerrado nos desvarios que o confundem e afetam a interpretação dos eventos, cabe-nos, neste trabalho, observar as marcas textuais que denotam a projeção, sobre a narrativa, dessa visão transfigurada e transfiguradora do narrador. Voltamo-nos, portanto, para o discurso e para os elementos composicionais que nele se constituem, a fim de verificar em que medida a narrativa se constrói, não a partir dos fatos efetivamente ocorridos, mas da forma como o narrador os absorve e os redimensiona.

2. A contradição do narrador.

Em síntese, Angústia conta a história de Luís da Silva, protagonista-narrador — homem assombrado por um passado paupérrimo, numa atualidade igualmente sofrível — que, abandonado por Marina, sua noiva por quem é loucamente apaixonado, acaba por matar por enforcamento o rival, Julião Tavares, o qual havia deixado Marina após engravidá-la.

Dessa breve paráfrase, podemos extrair um dos elementos que servem à ratificação de Angústia, quanto à sua inclusão no contexto do romance moderno: trata-se de um enredo sem nenhuma grandiosidade épica, em que os fatos de sucedem, desde a infância de Luís da Silva, apenas para confirmarem a sua precariedade pessoal intransponível e a loucura que o encaminha para o desatino.

Adorno (2003) destaca esse caráter niilista do romance moderno, na medida em que, diferentemente da visão idealizadora do período romântico, no qual essa forma narrativa se institui, o que agora se percebe é a depauperação da existência, reduzida a acontecimentos sem qualquer sentido dramático relevante, inconsistentes, portanto, como fatores de construção estética. “Pois contar algo significa ter algo a dizer, e justamente isso é impedido pelo mundo administrado pela estandardização e pela mesmice” (p.93). Da mesma forma, Benjamin (1975) ressalta a contradição que se instala no ato de narrar, dado não existirem fatos que efetivamente o justifiquem.

Uma das causas desta situação é óbvia: as experiências perderam muito o seu valor. E parece que assim continuarão perdendo. Basta olharmos um jornal qualquer, para verificarmos que seu nível está mais baixo do que nunca, que não apenas a imagem do mundo exterior, mas mesmo o universo ético sofreu repentinamente transformações antes inacreditáveis (p.63).

Em Angústia, a todo instante, evidencia-se esse posicionamento do personagem-narrador, frente a seu próprio desencanto, refletido no mundo que o cerca. “O meu horizonte ali era o quintal da casa à direita: as roseiras, o monte de lixo, o mamoeiro. Tudo feio, pobre, sujo. Até as roseiras eram mesquinhas: algumas rosas apenas, miúdas. Monturos próximos, águas estagnadas, mandavam para cá emanações desagradáveis” (p.36-37). 

Montaigne, no “Aviso ao leitor”, intróito dos Ensaios, na perspectiva de um homem conscientemente inserido em seu tempo e plenamente conhecedor do seu papel de sujeito do processo histórico, entende o ato de escrever como uma forma de perpetuar-se. E Luís da Silva? Por que o narrador decide escrever a própria história, se justamente a única ocorrência extraordinária de sua existência — o assassinato de Julião Tavares — é exatamente o fato que não pode ser revelado?

Na verdade, em nenhum momento o narrador faz qualquer menção sobre as motivações que o levam a escrever. Aliás, em certos trechos da narrativa, contraditoriamente, Luís da Silva fala do seu projeto sempre adiado de compor um livro, como se não o estivesse fazendo, no mesmo instante em que confessa esse desejo. “Enquanto estou fumando, nu, as pernas estiradas, dão-se grandes revoluções na minha vida. Faço um livro, livro notável, um romance. Os jornais gritam, uns me atacam, outros me defendem” (p.127). Para ele, a escrita de si mesmo não ultrapassa o sentido de anotações casuais, as quais não se dão a partir de objetivos claramente definidos. “Talvez o mamoeiro, as roseiras, o monte de lixo me passassem despercebidos, e se os menciono, é que, escrevendo estas notas, revejo-os daqui” (p.37).

É certo, entretanto, que toda linguagem, ao se organizar, o faz em função de um outro a quem se dirige para se permitir entender. Segundo Benveniste (1992), “A consciência de si só é possível se se tomar conhecimento de si por contraste. Eu só utilizo eu ao dirigir-me a alguém, que na minha alocução será um tu” (p.51). Nesse sentido, a presença de um receptor implícito, ao qual Luís da Silva se relata, pode ser observada pela preocupação do narrador — ao projetar o texto para o nível da representação de si — em precisar, referencialmente, o tempo e o espaço em que se encontra. Inicialmente, ocorre a especificação cronológica do momento e das circunstâncias em que conhecera Marina: “Em janeiro do ano passado estava eu numa tarde no quintal, deitado numa espreguiçadeira, fumando e lendo um romance” (p.30). É exatamente neste ponto do texto que se inicia a narração dos fatos que culminaram na morte de Julião Tavares.  Em seguida, o espaço é igualmente delimitado:  “Ainda não disse que moro na Rua do Macena, perto da usina elétrica. Ocupado em várias coisas, freqüentemente esqueço do essencial” (p.36). Note-se que, também em relação ao espaço, é o primeiro encontro com Marina o elemento dramático decisivo que o narrador não se esquece de considerar: “Afinal, para minha história, o quintal vale mais que a casa. (...) Foi lá que vi Marina pela primeira vez, em janeiro do ano passado. E lá nos tornamos amigos” (Idem).

Luís da Silva, portanto, se aparentemente não tem a pretensão de escrever um livro ou, de qualquer maneira, de ter o seu texto lido por quem quer que seja, ainda assim é nesse âmbito da linguagem que o narrador consegue alcançar o significado dos seus atos, pois “É na e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito; porque só a linguagem funda realmente na sua realidade, que é a do ser, o conceito de ‘ego’ (BENVENISTE: 1992, p.50).

Outro aspecto levantado por Adorno em que o corpus de nosso trabalho encontra ressonância é a influência de instâncias subjetivas do narrador sobre os eventos narrados, princípio fundador, na narrativa moderna, da autonomia do texto em relação à realidade que lhe serve de referência.

Nas palavras do teórico,

O romance foi a forma literária específica da era burguesa. (...) O realismo era-lhe imanente (...) No curso de um desenvolvimento que remonta ao século XIX, e que hoje se intensificou ao máximo, esse procedimento tornou-se questionável. Do ponto de vista do narrador isso é uma decorrência do subjetivismo, que não tolera mais nenhuma matéria sem transformá-la, solapando assim o preceito épico da objetividade (1992, p.92).

Temos aqui, certamente, um dos fundamentos que servem a Afrânio Coutinho — por cuja opinião iniciamos esse trabalho — para sustentar seu ponto de vista sobre o lugar que cabe a Angústia na obra de Graciliano Ramos e, por conseguinte, na conjuntura do romance moderno,  pois, como refere o crítico, “A figura de Luís da Silva vai-se compondo à medida que sua subjetividade o delineia e mostra a relação que estabelece com o mundo” (p.403).

Para o narrador, no entanto, nada resta a não ser o sonho, que não desiste de persegui-lo, de um dia escrever um romance.

3. Apresentação, representação e projeção.

Passamos agora a destacar, entre os recursos estilísticos utilizados pelo narrador, aquele que nos parece ser um dos mais preponderantes e significativos da obra em questão: as seguidas alternâncias, em Angústia, entre tempos verbais que se revezam na expressão de fatos presentes — correspondentes, portanto, ao instante do discurso —, acontecimentos passados representificados pela narrativa e projeções futuras idealizadas pelo narrador.

Como veremos, cada um desses níveis em que a história se desenvolve se constitui num fator de elucidação da complexidade individual deste narrador atormentado que, ao manifestar a simultaneidade de suas emoções, expressa, conseqüentemente a perenidade de seus conflitos.

3.1.  Apresentação: a narrativa no presente.

Como se tivesse emergido de um pesadelo, em que — numa certa medida — ainda permanece, trinta dias após matar Julião Tavares, o homem que na verdade gostaria de ser, Luís da Silva inicia, pela palavra, a reconstituição dos fatos que o induziriam ao gesto irreparável. “Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente” (p.05). O narrador, dessa forma, inicia sua empresa por um fato que pertence à conclusão do enredo, e por um verbo (Levantei-me) que, embora enunciado no passado, insinua semanticamente um ciclo que se inaugura.      

A partir de então, pelas primeiras páginas de Angústia, até que esse narrador, a certa altura, passe a enfocar o seu primeiro encontro com Marina, evento que desencadeia o conflito dramático essencial da narrativa, o texto é mantido, sobretudo, no plano do presente. Para Luís da Silva, nesse primeiro instante, importa apresentar-se significativamente, posicionando-se diante do leitor. “Está claro que todo desarranjo é interior. Por fora devo ser um cidadão como os outros, um diminuto cidadão que vai para o trabalho maçador, um Luís da Silva qualquer” (p.19).

Trata-se de um narrador que se deixa transparecer e que nesse desvelar-se revela uma de suas características mais marcantes: o costume de se desprender da realidade, refugiando-se nos próprios pensamentos. “Quando o carro pára, essas sombras antigas desaparecem se supetão — e vejo coisas que não me excitam nenhum interesse: (...) Os postes cintados de branco passam correndo, o carro está quase vazio, as recordações de minha infância precipitam-se” (p.10).  

Ao mesmo tempo, pela memória, o narrador se reaproxima sensivelmente de fatos transcorridos, trazendo-os novamente à cena, pois é na profundidade das reminiscências que subjazem as raízes de seu desconcerto e, em última análise, do crime que irá cometer.  

Ponho-me a vagabundear em pensamento pela vila distante, entro na igreja, escuto os sermões e os desaforos que padre Inácio pregava aos matutos: — “Arreda, povo, raça de cachorro com porco”. Sento-me no paredão do açude, ouço a cantilena dos sapos. Vejo a figura sinistra de seu Evaristo enforcado e os homens que iam para a cadeia amarrados de cordas (p.14).

Presente ao longo da trajetória pessoal de Luís da Silva, desde sua infância, a imagem do homem enforcado perpassa toda a narrativa, como a prenunciar o fatídico desfecho: a morte por enforcamento de Julião Tavares. Como uma semente que, em terreno propício, se pusesse prontamente a germinar, embora não tivesse premeditado o crime, aos poucos a  idéia se fortalece e ocupa cada vez mais a consciência de Luís da Silva, passando, no texto, da simples especulação: “Julião Tavares morreria violentamente e sem derramar sangue. Em sonhos ou acordado, vi-o roxo, os olhos esbugalhados, a língua fora da boca” (p.136), para a efetiva ponderação das conseqüências que a medida extrema poderia acarretar:

E apertava a corda com força. Quando retirava a mão do bolso, via nos dedos os sinais que ela deixava, marcas roxas na pele suada. O meu desejo era dar um salto, passar uma daquelas voltas no pescoço do homem. (...) Que é que podia me acontecer? Ir para a cadeia, ser processado e condenado, perder o emprego, cumprir sentença. A vida na cadeia não seria pior do que a que eu tinha (p.150-151).

Percebe-se a cada instante da enunciação, o delineamento de um discurso por meio do qual o narrador tenta encontrar uma explicação para a sua atitude, como uma maneira de ao menos amenizar o sentimento de culpa do qual não há como se eximir. “uma chuvinha renitente açoita as folhas da mangueira que ensombra o fundo do meu quintal, a água empapa o chão, mole como terra de cemitério, qualquer coisa desagradável persegue-me sem se fixar claramente no meu espírito. Sinto-me aborrecido, aperreado” (p.11). Pela escrita o narrador refaz o percurso que progressivamente atesta o fato de nunca ter havido uma escolha.

3.2. Representação: a narrativa no passado.

A introdução em cena de Marina e Julião Tavares, momento em que se chega à complicação do enredo, corresponde igualmente à passagem da narrativa do nível da apresentação, em que a enunciação verbal se mantém no presente, para o estágio da representação, no qual são relatados os eventos decorridos desde janeiro do ano anterior até o momento atual do discurso. Predomina, a partir desse ponto, o verbo no passado, por meio do qual o narrador se refere aos fatos precedentes à noite do ataque ao rival. “Foi por aquele tempo que Julião Tavares deu para aparecer aqui em casa. Lembram-se dele. Os jornais andaram a elogiá-lo, mas disseram mentira. Julião Tavares não tinha nenhuma das qualidades que lhe atribuíram” (p.40).

O que se conta, entretanto, como o narrador reforça, não são os fatos em si, mas a impressão de tais circunstâncias sobre o espírito de Luís da Silva. “Há nas minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento quase completo. As minhas ações surgem baralhadas e esmorecidas, como se fossem de outra pessoa” (p.102).

Retornando ao plano da enunciação no presente, visto que apresentação e representação não são, naturalmente, categorias discursivas estanques, encerradas em partes distintas do romance, o narrador confessa: “Lavo as mãos uma infinidade de vezes por dia, lavo as canetas antes de escrever, tenho horror às apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei por onde andou, a mão que meteu os dedos no nariz ou mexeu nas coxas de qualquer Marina” (p.151).

Estamos, portanto, diante de um sujeito perturbado, para o qual cada vez mais se acirra a confusão entre a realidade externamente observável e a sua repercussão interior. “O resfolegar de cachorro cansado atravessava-me as palmas das mãos, rasgava-me os ouvidos, e os pingos de urina, penetrando a palha podre do colchão, caía-me dentro da cabeça como marteladas” (p.100).

Nesse contexto em que, assim como passado e presente, também fantasia e realidade se fundem na mesma percepção, Marina se apresenta, para Luís da Silva, como a personagem principal de seus devaneios.

Vestido de pijama, fumando, olharia lá de cima os telhados da cidade, os bondes pequeninos a rodar quase parados e sem rumor, os focos da iluminação pública, os coqueiros negros à noite. Uns quadros a óleo enfeitariam a minha sala. Marina dormiria num colchão de paina. E quando saltasse da cama, pisaria num tapete felpudo que lhe acariciaria os pés descalços (p.69-70).

Como antagonista, por outro lado, Julião Tavares é o mensageiro do desencanto; aquele que vem mostrar a Luís da Silva o quão frágeis são os seus sonhos. “Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba” (p.75), declara o narrador a certa altura. Por isso Julião Tavares tem de morrer: por ser ele , ao possuir Marina, quem devolve o narrador à frustração imutável.

Neste momento em que o discurso se volta para a crescente obsessão que se apodera do pensamento do narrador, mais ainda se torna perceptível o paralelismo entre imaginação e realidade.

A voz oleosa de Julião Tavares continuava a perseguir-me. Era como se eu estivesse diante de um aparelho de rádio, ouvindo língua estranha. Distanciava-me. As palavras gordas iam comigo. Umas chegavam completas, outras alteravam-se — ruídos confusos e vogais indistintas. Necessário dar cabo daquela voz. Se o homem se calasse, as minhas apoquentações diminuiriam (p.90-91).

Mais adiante, o que antes se configurava como necessidade passa a impor-se como sentença inquestionável, não apenas para Julião Tavares, mas também para o próprio Luís da Silva, o qual não pode desvencilhar-se de seu papel de executor, tanto quanto Julião Tavares não pode evitar a atrocidade de que será a vítima. “Não procurei investigar as razões desta necessidade. Ela se impunha, entrava-me na cabeça como um prego. Um prego me atravessava os miolos. É estúpido, mas eu tinha realmente a impressão de que um objeto agudo me penetrava a cabeça. Dor terrível, uma idéia inutilizava as outras idéias. Julião Tavares devia morrer” (p.135).

Por fim, a corda com que o narrador haveria de levar a cabo tal punição surge diante de Luís da Silva, inusitadamente, trazida sem mais nem menos por um amigo, como se brotasse das fantasias do narrador; um signo que adquire consistência e se torna tangível para, mais do que representar a morte, servir-lhe como instrumento. Agora é a imaginação que reciprocamente invade o espaço do real, assim como a realidade não se escusa de interferir no imaginário.   

Evitava dizer o nome da coisa que estava ali, em cima da mesa, junto ao prato de seu Ivo. Parecia-me que, se pronunciasse o nome, uma parte das minhas preocupações se revelaria. Enquanto estivera dobrada, não tinha semelhança com o objeto que me perseguia. Era um rolo pequeno, inofensivo. Logo que se desenroscara, dera-me um choque violento, fizera-me recuar tremendo. Antes de refletir, tive a impressão de que aquilo me ia amarrar ou morder (p.139).

Numa das passagens mais importantes do romance, ocorrida na infância de Luís da Silva, o narrador relembra o dia em que viu uma cobra enrolada no pescoço do pai. “A cascavel chocalhava, Trajano dançava no chão de terra batida e gritava: — ‘Tira, tira, tira’. (p.73)”. No clímax da narrativa, em cena antológica, correspondente ao momento em que o narrador surpreende Julião Tavares e o enforca, fecha-se o ciclo iniciado naquele tempo antigo. O que sempre estivera acontecendo finalmente chegava ao seu final, como uma premonição que se houvesse concretizado.

Retirei a corda do bolso e em alguns saltos, silenciosos como os das onças de José Baía, estava ao pé de Julião Tavares.(...) Houve uma luta rápida, um gorgolejo, braços a debater-se. Exatamente o que eu havia imaginado. O corpo de Julião Tavares ora tombava para a frente e ameaçava arrastar-me, ora se inclinava para trás e queria cair em cima de mim. A obsessão ia desaparecer. Tive um deslumbramento. O homenzinho da repartição e do jornal não era eu (p.186).

Ao mesmo tempo em que o assassinato de Julião Tavares ocorre como Luís da Silva o havia imaginado, ele o pratica como se fosse um Outro. Não se trata do “homenzinho da repartição e do jornal” ao qual faltaria coragem para tal exacerbação, mas de outro Luís da Silva que até então se mantivera eclipsado, manifestando-se esporadicamente nos momentos em que pensava na morte do inimigo, e que agora, de uma vez por todas, chega à consciência.

Reforça-se, portanto, a hipótese de que Luís da Silva escreve para tentar se redimir, a partir da compreensão dos passos que para ali se conduziram. Ao escrever a própria história, o protagonista se distingue do seu ato e encerra na imaginação o inimigo que já não existe.

3.3. Projeção: a narrativa no futuro.                  

O terceiro nível de temporalidade em que Angústia se estrutura é o futuro do pretérito, por meio do qual o narrador expressa os possíveis desdobramentos por ele imaginados dos fatos que vivencia. Trata-se de uma narração do que se passa exclusivamente na imaginação de Luís da Silva, nos momentos em que tenta recriar, pelo pensamento, a realidade que o cerca.

Em certas passagens, o narrador projeta, nesse nível do discurso, a felicidade que vislumbra obter, ao se casar com Marina. “O diretor me diria: — ‘Entrou no rol dos homens sérios, seu Luís’. D. Adélia choraria abraçada à filha como é de costume” (p.66). Tais visões, entretanto, não se sustentam ao serem confrontadas com a realidade objetiva, determinada sobretudo pela falta de dinheiro. “No dia seguinte d. Rosália se penduraria à janela para gritar: — ‘Estava muito bonita a sua grinalda, minha negra’. Quanto iriam custar tantas maçadas? Talvez os três contos de réis voassem” (Idem).

É também nesse tempo verbal que Luís da Silva expressa a perspectiva de eliminar Julião Tavares, deixando transparecer a face aterradora, desconhecida daqueles com os quais convive. “Lutaria e estrebucharia a princípio, depois seriam apenas convulsões, estremecimentos. Os meus dedos continuariam crispados, penetrando a carne que se imobilizaria, em silêncio” (p.102).

Após cometer o crime, ao refletir sobre as conseqüências que poderiam advir de sua atitude, o narrador novamente recorre à mesma forma verbal para exprimir preocupação. “Perceberiam logo a mentira. Em seguida viriam perguntas insignificantes em tom misterioso, e eu me cansaria inutilmente para desviar-me delas. Quando estivesse distraído, jogariam de novo a coisa perversa: — Mas onde foi que o senhor passou a noite de tal dia?” (p.197).

Seja o futuro do pretérito, portanto, semanticamente falando, indicador de volição, como o primeiro exemplo demonstra, de intencionalidade ou de apreensão, respectivamente expressas nas outras passagens citadas, trata-se sempre de um significante revelador da incompletude de um sujeito, para quem o momento presente é sinônimo de aprisionamento e de contínua frustração.

4. Conclusão.

É claro que não se pode pretender, neste breve estudo, percorrer toda a complexidade de Angústia, nem tampouco esgotar um objeto cuja profundidade está sempre a distanciar-se. Por agora, basta-nos apontar na obra a forte presença de elementos constituintes da subjetividade do narrador, pelos quais o texto se torna o único registro de uma história que para ninguém mais ocorreu.

Morto Julião Tavares, por algum tempo Luís da Silva permanece de cama, febril, tendo delírios em que personagens e episódios do passado e do presente convergem para a mesma alucinação, transmitida no discurso por um longo fluxo de consciência. “Um homem sem rosto, sentado na cadeira onde tinha ficado o paletó, falava muito. Que dizia ele? Esforçava-me por entendê-lo, mas tinha a impressão que o visitante usava língua estrangeira. Era como se me achasse num cinema” (p.214).

Todavia, ao retornar à vida cotidiana, o homem que sai de casa para a repartição em que trabalha é o mesmo Luís da Silva que todos reconhecem, não sendo, ao mesmo tempo, o que os outros o vêem ser. No jornal, onde não passa de um obscuro redator, segue a recalcar as próprias opiniões e a incumbir-se de defender as idéias alheias.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGÁFICAS.

ADORNO, Theodor W. Notas de literatura I. Tradução de Jorge de Almeida. São Paulo: Duas cidades / Editora 34, 2003.

BENJAMIN, Walter. “O narrador” in Textos escolhidos. 1ª Edição – São Paulo: Abril, 1975.

BENVENISTE, Émile. O homem na linguagem. Lisboa: Veja, 1992.

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil – era modernista. 4ª. Edição – São Paulo: Global, 1997.

NUNES, Benedito. O tempo na narrativa. 2ª. Edição – São Paulo: Ática, 1995.

RAMOS, Graciliano. Angústia. São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.

REIS, Carlos & LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de teoria da narrativa. 1ª. Edição – São Paulo: Ática, 2002.

 

Sobre o autor:

Carlos Alberto Rodrigues Pereira
- Professor da rede pública de ensino do estado de São Paulo, é graduado em letras pela Fundação Santo André, e mestre em literatura e crítica literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

E- mail: carp1874@hotmail.com

 

 



Matéria publicada em 01/09/2006   - Edição Número 85