Fale conosco | Cadastro | Indique este site | Como publicar | Links Indicados | Editora Komedi | Webka


Bem-vindo(a) visitante 18586299, 02/09/2010 • www.kplus.com.br


Busca no Kplus

Digite um assunto específico que deseja encontrar no site

Matérias

Nos trilhos vazios da memória
Jorge Pieiro

Episódio (Português/Espanhol)
José Geraldo Neres

Por que ensinar a ler é tão difícil?
Vicente Martins

O eu insano: a distorção da narrativa - em ''Angústia'', de Graciliano Ramos
Carlos Alberto Rodrigues Pereira

Os pêlos de Maria Marão
Arnaldo Massari

Serviços

Mais de 70 Jornais Nacionais e Internacionais
Mais de 100 Revistas Nacionais e Internacionais
Mais de 100 Museus do Mundo
Programas de Busca na Internet - Nacionais e Internacionais

Revistas

 

Veredas de Nós Mesmos

Marco Gandra


                                                                 "Arco íris proxíssimo! parece andar com o trem. Seu verde é belo - bórico - vê-se o roxo, anil. Não tem raízes, não se encosta no chão. Está do lado oeste, onde há nuvens estranhas, escuras, de trombas d'água. E cidades e aldeias sobre montes, grimpas. Do lado do mar, o sol se abaixa. Tudo claro. como o trem divide o mundo"

Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas

Para Anísio Ghiro da Costa

Anísio trazia as mãos vazias, mas um peso enorme: o medo   incomum naquele homem de muitas    rotas, mas comum aos  homens vulgares. Medo de ter se perdido em algum lugar naquelas  andanças pelos sertões infinitos.Medo de viver  resignado como boi de engenho, medo de  andar sem destino, a esmo por aquelas Veredas infinitas, medo de ser tão....Por um momento, naquela confusão de tempos que o sertão causa na gente, onde tempo e espaço se fundem e se separam para nunca mais.

Anísio perdido em seus pensamentos, quando o vi passar na sua pressa de pocotó mundo afora.Queria ver seus olhos que perscrutam o que vai ao íntimo da gente, queria percorrer as Veredas de  seu silêncio sapiente, invadir suas noites, entrar em seus sonhos até me perder de mim mesmo...Mas me contento quando ele me volve a face e fita meus olhos  castanhos e estrábicos, afinal, viver é mesmo um tanto quanto arriscoso!Eu estava ali, como rês desgarrada, perdido de meus pares, à sombra do frondoso  carvalho.Aquele mesmo  cuja carantonha  tinha feito refugar a montaria de Anísio quando o vi passar no afã de ir mais além.Ouro e prata que me percebi distante de mim, destas  coisas em que a gente se envereda quando gosta em demasia.Seguiu.Mas estava no mundo, não distante de mim, e por hora isto me bastava.Lembrei-me de Riobaldo e Diadorim e de como nunca se viu um  gostar daquela intensidade. E de como o  improvável não significa necessariamente o impossível.

Terra rasgada, profundos grotões.As cicatrizes do gostar demasiado.Gaia, a terra –mãe, que  em estertores pariu a humanidade; ao engendrar seus filhos, feitos de barro a imagem, e semelhança de Deus-Pai todo poderoso. Seguia em seu solilóquio sacro-profano, a pensar com seus botões, o sol desmaiando no horizonte num incêndio feérico.

Andou a mais não poder, sozinho, perdido em seus pensamentos, andou  como se naquele mesmo dia terminasse sua jornada, andou com a mesma pressa de partir que lhe era peculiar.Até que o dia se fez noite, e as  vagas estrelas da  do cruzeiro do sul pareciam estar ao alcance das mãos.Anísio prestes a se precipitar no vácuo de nós mesmos, que é quando dormimos, em que a gente vira de tudo: vira bicho, vira flor, vira pedra, sonha.Anísio sonha.Um sonho revelador como o sonho de Jacó.O cavalo do tempo passa a galope desenfreado!

Já os primeiro raios de sol sangravam  o céu, vermelho, naquela manhã de verão.  O que sonhou nem sequer se lembra, mas levantou sem medo de estar no mundo.

Definitivamente, a vida é sonho!

Sobre o autor:

Caipira de Sorocaba, Marco Aurélio GANDRA nasceu no dia 20 de Novembro de 1967, ou seja, um dia apos a morte de Guimarães Rosa. Neto de tropeiros, muito cedo se identificou com o universo Roseana que lembrava as prosas boiadeiros que seus avos lhe contavam. Ator,diretor e pesquisador de Teatro, pesquisou na USP, onde deu Oficinas por cinco anos e dirigiu seis espetáculos com produção da USP. Escreveu roteiros e adaptações dramaturgicas. Atualmente mora nas proximidades do rio Tietê, na noroeste paulista.
E-mail: marcogandra@ig.com.br



Matéria publicada em 01/11/2005   - Edição Número 75