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Veredas de Nós Mesmos Marco Gandra
"Arco íris proxíssimo! parece andar com o trem. Seu verde é belo - bórico - vê-se o roxo, anil. Não tem raízes, não se encosta no chão. Está do lado oeste, onde há nuvens estranhas, escuras, de trombas d'água. E cidades e aldeias sobre montes, grimpas. Do lado do mar, o sol se abaixa. Tudo claro. como o trem divide o mundo" Guimarães Rosa Para Anísio Ghiro da Costa Anísio trazia as mãos vazias, mas um peso enorme: o medo incomum naquele homem de muitas rotas, mas comum aos homens vulgares. Medo de ter se perdido em algum lugar naquelas andanças pelos sertões infinitos.Medo de viver resignado como boi de engenho, medo de andar sem destino, a esmo por aquelas Veredas infinitas, medo de ser tão....Por um momento, naquela confusão de tempos que o sertão causa na gente, onde tempo e espaço se fundem e se separam para nunca mais. Anísio perdido em seus pensamentos, quando o vi passar na sua pressa de pocotó mundo afora.Queria ver seus olhos que perscrutam o que vai ao íntimo da gente, queria percorrer as Veredas de seu silêncio sapiente, invadir suas noites, entrar em seus sonhos até me perder de mim mesmo...Mas me contento quando ele me volve a face e fita meus olhos castanhos e estrábicos, afinal, viver é mesmo um tanto quanto arriscoso!Eu estava ali, como rês desgarrada, perdido de meus pares, à sombra do frondoso carvalho.Aquele mesmo cuja carantonha tinha feito refugar a montaria de Anísio quando o vi passar no afã de ir mais além.Ouro e prata que me percebi distante de mim, destas coisas em que a gente se envereda quando gosta em demasia.Seguiu.Mas estava no mundo, não distante de mim, e por hora isto me bastava.Lembrei-me de Riobaldo e Diadorim e de como nunca se viu um gostar daquela intensidade. E de como o improvável não significa necessariamente o impossível. Terra rasgada, profundos grotões.As cicatrizes do gostar demasiado.Gaia, a terra –mãe, que em estertores pariu a humanidade; ao engendrar seus filhos, feitos de barro a imagem, e semelhança de Deus-Pai todo poderoso. Seguia em seu solilóquio sacro-profano, a pensar com seus botões, o sol desmaiando no horizonte num incêndio feérico. Andou a mais não poder, sozinho, perdido em seus pensamentos, andou como se naquele mesmo dia terminasse sua jornada, andou com a mesma pressa de partir que lhe era peculiar.Até que o dia se fez noite, e as vagas estrelas da do cruzeiro do sul pareciam estar ao alcance das mãos.Anísio prestes a se precipitar no vácuo de nós mesmos, que é quando dormimos, em que a gente vira de tudo: vira bicho, vira flor, vira pedra, sonha.Anísio sonha.Um sonho revelador como o sonho de Jacó.O cavalo do tempo passa a galope desenfreado! Já os primeiro raios de sol sangravam o céu, vermelho, naquela manhã de verão. O que sonhou nem sequer se lembra, mas levantou sem medo de estar no mundo. Definitivamente, a vida é sonho! Sobre o autor: Caipira de Sorocaba, Marco Aurélio
GANDRA nasceu no dia 20 de Novembro de 1967, ou seja, um dia apos a morte
de Guimarães Rosa. Neto de tropeiros, muito cedo se identificou com o
universo Roseana que lembrava as prosas boiadeiros que seus avos lhe contavam.
Ator,diretor e pesquisador de Teatro, pesquisou na USP, onde deu Oficinas por
cinco anos e dirigiu seis espetáculos com produção da USP.
Escreveu roteiros e adaptações dramaturgicas. Atualmente mora
nas proximidades do rio Tietê, na noroeste paulista.
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