Seleção de Poesias
Editora Komedi
Seleção de poesias
de livros recém-lánçados
Seleção de poesias do
livro Jade - Flávio Villa-Lobos
Inventar uma lua cheia
que ilumine teu caminho
parece ser minha saga,
meu inevitável destino.
Aprisionar a furiosa ventania
que ameaça teus cabelos
parece ser minha magia,
minha força na ponta dos dedos.
Dobrar a copa das árvores
e na tempestade
proteger-te das águas
parece ser minha sina,
meu cuidado extremo.
Impedir o sol forte
de banhar-te
a pele maravilhosa
parece ser minha derradeira
metamorfose:
transmutar-me em espessa
nuvem negra
e filtrar os raios
do ardente mormaço.
Parece ser minha ventura
acompanhar-te,
viver à sombra de teus passos
e quando exausta chegares
ao fim da longa e inútil
jornada,
de braços abertos
esperar-te.
Ah! o tempo... esse redemoinho
em disparada.
O tempo avança e os caminhos
se formam
já vai longe o tempo da primeira
namorada.
Tardiamente, descobre-se num
arremedo
de fantasia
que a felicidade vivia
ao nosso lado, sem mistificação.
Naquela quadra de horas gigantes,
vivíamos plenos
de aventura não tínhamos medo.
Éramos
apenas duas crianças
procurando o mesmo brinquedo.
Eu quero tua figura
explorando meu íntimo,
rasgando meu peito
num fogaréu de muitas
línguas.
Eu quero tua cor
ampliando meu horizonte,
ofuscando minha íris
a negra paisagem
que eu ainda não vira.
Eu quero teu perfume
penetrando minhas narinas
meus pulmões pressentindo
o aroma de tua pele
indígena.
Eu quero tua voz
aguçando meus sentidos,
fazendo vir à tona
sonoridades e timbres
que eu nunca ouvira.
Eu quero tua nudez
despindo meus temores,
celebrando no ato
tua beleza selvagem,
intrínseca.
Amordaçam-me a voz
(sons interiores
traduzindo cores
de vívidos matizes)
Meu coração uma galeria
de quadros felizes.
Vedam-me os olhos ao mundo
(imagens rubras
revelando a fuga
de retinas ávidas)
Minha perspectiva entre todas,
a mais lúcida.
Negam-me o cheiro das manhãs
(seiva da terra
germinando frutas raras)
Meu aroma aura cítrica
de maçãs.
Cassam-me o gosto das paixões
(na vertigem das bocas,
amores tardios e loucos)
Minha sede sempre infinita
e água tão pouca.
Encerram-me na cela dos horrores
(tateiam as horas nuas pelos sulcos
da parede fria)
Minha loucura negra passagem
entre a noite e o dia.
Condenam-me ao exílio interior
(sob o açoite assassino,
a interminável angústia)
Minha pena privação muito além
dos cinco sentidos.
Tudo em vão... Ainda me resta
um derradeiro lenitivo:
na inexpugnável prisão,
o poder do sonho uma fresta
por onde escapo ileso
e sobrevivo.
Seleção de poesias do Livro
das Mesmices - Adolfo Maurício
Triste chão
calcetado em história empedrada
à cidade e à gente
de São Tomé das Letras
2. areia e arenito
arenito e areia
e uma razão
que se deglute
e se lambe
e se explode
em fantasia
irrestrita fantasia
do desmoronar
de relâmpagos ordinários
mica e ferrugem
ferrugem e mica
mica e ferrugem
ferrugem e mica
mica e ferrugem
ferrugem e mica |
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e o explosivo
r e t o r n a r
às minúcias
do enfadonho
s e n t i m e n t o
do lirismo |
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a gente
a pedra
a gente
a pedra
a gente
a pedra |
Miudezas de
amor
Meu amor é
corredeira
deságua logo no mar
e perde a força de início
no ato de navegar.
Meu amor é
cantochão
tão antigo assim não há,
que pasma no vertedouro
da ânsia de comungar.
Meu amor é
desacordo
que se impõe tão sem razão
: perene, busca mostrar-se,
instável, se faz paixão.
Meu amor é renascer
impróprio, ressurreição
: se vivo, morro cansado,
se morro, vivo a ilusão.
Contrariando
Drummond
Para Lygia Fagundes
Telles,
lendo, enciumado, Drummond
Não procuro Lygia
nunca
que ela achada sempre está:
não em São Paulo ou Palmeira,
nem em Campos do Jordão;
nem nas ruas da tristeza
nem nas da Consolação.
Nos mapas, entanto, está,
mas em forma de paixão.
Mas não em Tegucigalpa,
muito menos em Moscou.
Paris? Possível estar!
Mas nunca no Hindustão.
Em Drummond, por certo está,
em dosagem comedida
espoucar de carrilhões!
pra sobrar tempo sereno
para estar incontinenti
doces, ricas sensações
tanto quanto Deus nos céus,
viva em nossas emoções.
Caxambu, março de
1996
Antiquariato
Velharias:
meu passado!
Do passado dos meus pais.
Lugar onde os meus avós,
escravos dos bisavós,
fingem a mesma plenitude.
Nestas trincas
retorcidas
riachos de decadência
os espelhos se esmaecem.
Melhor fazem as aranhas
que no brilho de mil teias
escrevem memórias de vida.
Alfarrábios que se
embestam!
Doutorais ficam dispostos
na inércia dos arranjos.
Vez ou outra alguém os abre
: curiosos vendilhões
de vontades indecisas.
As pratarias, oh,
sim,
ao menos refletem pompa,
mesmo que cínico o tempo
entorte-lhes os olhos
num viés de déjà vu.
E dentre todas as peças
nem sempre muito bonitas
uma deparo pasmado:
o espelho cristalizado,
emoldurado em ouro
e recurvado em fausteza.
No meio dele, assustada,
a minha figura tesa,
espantada em decadência,
rwpartida em solidão.
Matéria publicada em 01/11/1999
- Edição Número 3
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