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Este, Esse ou Aquele

M. T. Piacentini


Este, Esse ou Aquele

Este, Esse ou Aquele

Em português existem três pronomes demonstrativos com suas formas variáveis em gênero e número e invariáveis [isto, isso, aquilo]. Eles assinalam a posição do objeto designado relativamente às pessoas do discurso (falante/ouvinte) e ao assunto do discurso (o ser de que se fala). Há uma estreita relação entre os pronomes pessoais, os possessivos e os demonstrativos:

  • 1ª pessoa - meu - este, esta, isto
  • 2ª pessoa - teu - esse, essa, isso
  • 3ª pessoa - seu - aquele, aquela, aquilo

Apesar de existirem regras para os pronomes demonstrativos, não se constata muita rigidez no seu uso, principalmente na fala – quando se observa uma assimilação do t pelo s (parece que tudo é isso, essa, esse) – e sobretudo no tocante ao seu emprego para lembrar ao leitor ou ouvinte o que já foi mencionado ou se vai mencionar. Vejamos então um esquema de bom emprego dos pronomes demonstrativos:

Em relação ao lugar:

  • o lugar onde estou: este
  • o lugar onde você está: esse
  • o lugar distante do falante e do ouvinte: aquele

Há neste ponto uma natural correlação com os advérbios de lugar: isto aqui – isso aí - aquilo ali / lá [jamais de diz * aquilo aqui; pode-se até ouvir *isso aqui, mas por causa da assimilação da letra t , já mencionada].

Exemplos corretos:

  • Neste capítulo [o capítulo que V. está descrevendo] apresentamos os objetivos.
  • Veja (aqui) esta borboleta, que linda!
  • Que país é este ? perguntam-se os brasileiros. [referindo-se ao Brasil e no Brasil]
  • Pegue aqui: relacione todos os nomes citados neste livrete.
  • Em atenção a pedido dessa instituição, estamos remetendo a V. Sa. o boletim ECO.
  • Traga-me esses livros que estão com você.
  • Logo que puder, despacharei os pacotes para essa cidade.

Emprego em relação ao tempo:

  • tempo presente: este
  • passado ou futuro próximo: esse
  • passado distante: aquele

Exemplos:

  • Neste ano [trata-se de 2000] pouco se fez em favor dos sem-teto.
  • Não há ocorrência de acidentes nesta data. [hoje]
  • O avião a jato, a televisão e o computador são as maiores invenções deste século.
  • Nestes últimos vinte anos a mulher tem ocupado mais espaços.
  • A década de 20 marcou a conquista do voto pela mulher. Nesses dez anos ela travou grandes lutas pela liberdade.
  • Marina vai estar na cidade por esses dias...
  • Quando éramos crianças brincávamos mais, pois naquela época não havia pré-escola, nem aulas de natação, de balé, de inglês... Bons tempos aqueles! - diz vovó, nostálgica.

Emprego em relação ao discurso:

  • o que vai ser mencionado: este
  • É isto que eu digo sempre: cultura é fundamental. [o pronome está antes dos dois-pontos]
  • Nosso vizinho vive repetindo este provérbio: "Casa de ferreiro, espeto de pau".
  • o que se mencionou antes: esse
  • - A segunda parte do trabalho dispõe sobre a marginalidade social. É nesse capítulo / nessa parte / nesse ponto que se discutem os desvios verificados nas instituições pesquisadas.
  • - É possível comer manga e tomar leite junto? Melancia com vinho faz mal? Disso tratam os autores no final do artigo.

Emprego dos pronomes demonstrativos em relação ao discurso:

  • entre dois ou três fatos citados:

    • o primeiro que foi citado: aquele

    • o do meio: esse

    • o último citado: este

    Exemplos:

    • Houve uma guerra no mar entre corsários de França e Inglaterra: estes [desnecessário dizer que são os corsários ingleses] venceram aqueles.

    • Música de câmara e ópera são as suas preferidas: esta, porque mexe com seus sentimentos; aquela, pelos efeitos relaxantes.

     

    Uma questão de clareza - É bastante comum o uso de este/esta no lugar do pronome pessoal ele/ela como referência à coisa mais presente, mais à mão, mais próxima (embora já apresentada), quando na oração anterior aparecem outros substantivos que poderiam ser referidos pelo mesmo pronome pessoal, o que poderia confundir o leitor. Exemplos:

    • Quando o rei D. João V faleceu e D. José ocupou o trono, este recorreu a Sebastião José para ser Ministro da Guerra e dos Negócios Estrangeiros.

    Dois antecedentes masculinos. Com ‘ele’ no lugar de ‘este’, à primeira vista poderíamos pensar ter D. João V, e não D. José, nomeado Sebastião José (o Marquês de Pombal) ministro.

    • Macpherson dirige sua crítica a Rawls quando este admite serem os princípios éticos da justiça econômica capazes de regular o mercado.

    Pelo demonstrativo, fica claro que Rawls é o sujeito de ‘admite’, não Macpherson.

    • Há necessidade de romper com o conhecimento do passado e, em conseqüência dessa ruptura, torna-se inevitável a retificação da linguagem para que esta se torne adequada à nova ciência.

    O pronome ‘ela’ no lugar de ‘esta’ não nos permitiria saber se o autor estava fazendo referência a ‘linguagem’, ‘retificação’ ou ‘ruptura’.

    Quando os substantivos antecedentes pertencerem a número e gênero diversos ou quando não houver ambigüidade na frase, é melhor, mais adequado e correto usar o pronome pessoal ele(s) ou ela(s) em vez do demonstrativo:

    • Bachelard, no que se refere à necessidade de superação de obstáculos, alerta que eles não têm origem externa ao ato de conhecer. [e não ‘estes’]

    • Essa concepção de ensino não constitui novidade, a ponto de certos autores aludirem a ela como um aforismo. [desnecessário dizer ‘esta’]

    • O metal, aquecendo-se progressivamente com o aumento da corrente, deve derreter quando ela ultrapassar 10% de um valor prescrito.

    Mais um detalhe: ao se referirem a elemento anterior mais próximo, os pronomes este(s) / esta(s) são encontrados também em combinação com o termo ‘último’:

  • Preocupa-se o autor com a escrita como processo, e não como literatura ou como texto a ser lingüisticamente analisado. Aliás, neste último caso não se leva em consideração o tipo de processo..."

  • Cabe mencionar ainda que no Brasil as editoras, principalmente, não estão sendo demasiadamente rigorosas com o uso dos demonstrativos (a não ser na questão de lugar e tempo), porque no aspecto de ‘localização do discurso’ muitas vezes a distinção entre o que é ‘mencionado anteriormente’ e o que é ‘lugar/tempo’ é pouco perceptível. Por exemplo, num texto em que vários artigos de lei estão sendo citados, o autor pode preferir dizer este artigo ao se referir a um já citado (quando então usaria esse artigo) porque ele está justamente tratando "deste último", do mais próximo (lugar), do que está presente naquele momento (tempo).

    Também no caso de uma tese em que se fala de uma empresa ou pessoas pesquisadas, pode-se escrever "esta empresa" ou "estas alunas" mesmo tendo sido elas mencionadas antes - no parágrafo anterior, digamos -, desde que se pense nelas como "as alunas tratadas aqui, nesta pesquisa", ou "a empresa de que se fala neste trabalho, aqui e agora". São casos em que a escolha depende do ponto de vista de quem escreve.

     


    Sobre a autora:

    • Maria Tereza de Queiroz Piacentini é catarinense, professora de Inglês e Português, revisora de textos e redatora de correspondência oficial há mais de vinte anos. Em 1989 foi responsável pela revisão gramatical da Constituição do Estado de Santa Catarina e no ano seguinte publicou artigos sobre questões vernáculas em diversos jornais. Retoma agora a publicação de colunas semanais com temas atualizados, em vista da experiência adquirida e das inúmeras consultas que lhe têm feito pessoas de todo o País depois que lançou o livro Só Vírgula - Método fácil em 20 lições (UFSCar, 1996, 164p.). Também teve publicados, em 1986, dez módulos da Instituição Técnica Programada - ITP, Português para Redação, edição esgotada.
      Hompege:
      www.linguabrasil.com.br



    Matéria publicada em 01/08/2001   - Edição Número 24