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Tributo a Ghiaroni Marcelo Henrique
Recentemente, um susto! Vasculhando sites, ao acaso, pela Internet, deparo-me com a notícia de que uma paulista chamada Ana Lúcia Sesso teria telefonado ao titular do blog “Antena Paranóica”, Nonato Albuquerque, perguntando a ele qual o ano em que faleceu (?) Ghiaroni, o que me causou espanto. Mais adiante, a resposta do dito cujo, através do blog, informando, apenas, desconhecer tal data, acrescentando que na Internet nada encontrara a esse respeito. Mas é claro que não haveria de encontrar, pois mestre Ghiaroni está vivo, com a graça de Deus! Apressei-me, pois, em esclarecer, através do mesmo blog, o assunto, “ressuscitando” Ghiaroni para a mídia e para o público... Isso me motivou a rememorar que, lá pelos idos de 1989, fui iniciado pela poetisa amparense Jandira Grillo na literatura produzida por Giuseppe Ghiaroni – figura de proa da Rádio Nacional dos anos cinqüenta e poeta na sua acepção mais lídima – ou, pelo menos, no pouco que havia conhecido, até então, de sua obra poética. Foi memorizar e dizer versos de Ghiaroni às escâncaras – “Dia das Mães” e “A Máquina de Escrever” são poemas antológicos, imortalizados na voz do fabuloso Paulo Gracindo, entre outras tantas vozes de igual capacidade interpretativa, sob as luzes da ribalta ou no mais completo anonimato. Já na década de quarenta, seu nome ganhava ressonância nacional e seus versos passaram a ser declamados por todo o País, outros receberam música (eles que só eram melodias!) e viraram sucesso nas vozes dos nossos melhores cantores. De repente, em 1995, em virtude de um primeiro lugar num concurso literário cuja premiação seria no Rio, a chance de conhecer, pessoalmente, o grande vate carioca (por adoção, já que viera ele de sua querida Paraíba do Sul), sobrinho, pelo lado materno, do não menos famoso Agripino Grieco (admirado e temido por sua mordacidade). Depois de caçá-lo, literalmente, por três dias consecutivos com o mesmo fervor de tietes de plantão no encalço do ídolo fugidio, “cherloqueei” seu endereço. Sorte minha! Estava, mesmo, disposto a virar Copacabana às avessas sob pena de sacrificar os compromissos que me levaram ao Rio. Vencidos os percalços, fui recebido, finalmente, por Ghiaroni. Com seu vozeirão de radialista consagrado, ele me disse da surpresa e da felicidade ao receber um jovem de vinte e cinco anos, fato incomum, segundo ele, aos remanescentes da velha guarda intelectual, “o que me sensibiliza profundamente e me faz concluir ser mérito exclusivo de meus versos... porque eu sou apenas um velho lobo do mar.”. E sentenciou: “É fácil fazer versos; difícil é fazer poesia!”. A luz de seus olhos já estava, a esse tempo, um tanto quanto apagada, apesar de duas operações de catarata feitas por seu sobrinho, o oftalmologista e escritor Almir Ghiaroni, casado com a bela Georgia Worthman. Atualmente, com 86 anos (que completou, aliás, no último dia 22 de fevereiro), residindo no Leblon, sofrendo do mal de Alzheimer, Ghiaroni tem sido cercado pelo carinho de velhos amigos e admiradores. Como lamento não poder lhe fazer outra visita, que seria a terceira. O Ghiaroni que eu conheci, já com setenta e poucos anos, ainda estava envolvido num turbilhão de compromissos televisivos. Sobre sua mesa, vi duas folhas de sulfite datilografadas pelo próprio Ghiaroni, a pedido de Renato Aragão, para uma das campanhas da Unicef. Juntos, acompanhados por um amigo dele (seria Oranice Franco?), fomos à parte central do Rio, de táxi, comer um delicioso bolinho de carne – sugestão do grande poeta. Enquanto comíamos, Ghiaroni me disse, de cor, os seguintes versos, que, segundo ele, seriam os últimos versos de Fernando Pessoa:
Confesso que, além da palavra de Ghiaroni (o bastante para mim!), nunca encontrei confirmação disso ou referência a essa estrofe... Tive a felicidade de, além de nossos encontros pessoais, me corresponder com ele, de conversar através do telefone. Fui presenteado, anos depois, em 1997, com um exemplar de seu livro A Máquina de Escrever (lançado, inclusive, no Jô Soares) e, sobretudo, premiado com seu prefácio ao meu livro de estréia – Cantares de Amor e Maldição, lançado em 1999 pelo selo Komedi. Assim, já me dou por feliz. Na época em que o visitei, naqueles meados da década de noventa, Ghiaroni cumpria, ainda, como contratado da Rede Globo de Televisão, uma maratona intelectual invejável, trabalhando na produção da “Escolinha do Professor Raimundo”, assessorando, nos bastidores, o renomado Chico Anysio, seu amigo de longa data, fazendo jus ao verso que escrevera no passado: “Há muito em que empregar o braço e o coração”. Em junho de 1995, esperançoso e até generoso, me escreveria: “Agora que estão descobrindo o grande Augusto dos Anjos, por tanto tempo maldito e desprezado, acredito que surja algum movimento para salvar a vida da poesia malferida. Quando isso acontecer, garanto que você estará no meio. Mais uma vez, obrigado. Pois quem diz os meus versos minha boca adoça. Neste caso, a boca do seu amigo e (se me perdoa a pretensão) do seu colega”. Que orgulho ter sido alvo de tais palavras do mestre Ghiaroni. Todo poeta é um sonhador. Ghiaroni não fugiu à regra:
E, lírico, mavioso, o poeta lançou um apelo ao coração:
Deixemos, pois, que a criatura revele o criador. Abaixo, para conhecimento do leitor, um de seus inspirados sonetos:
Ao mestre Ghiaroni, um dos maiores poetas brasileiros a pontificar no Século XX, a homenagem deste discípulo! Sobre o autor: Marcelo Henrique, 35 anos, poeta e escritor, reside em Amparo/SP.
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