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Viajar Patrícia Delgado
Texto que fala sobre a relação da autora com a música, a poesia, o cinema, a fotografia e o encanto de viajar e se aventurar. "Você não sabe o quanto eu caminhei, pra chegar até aqui, Eu tenho uma inquietação aqui comigo, e esta inquietação me faz buscar novas experiências e aventuras, desbravar fronteiras, superar limites, como "O conto da Ilha Desconhecida", de José Saramago. Hoje foi mais um dia desses que pus meus pés na estrada, andei por ruas, estradas, rodovias nunca antes exploradas e, com os meus olhos bem abertos, contemplei e admirei a beleza da paisagem ao meu redor, venerei a exuberância da natureza, respirei profundamente, dancei com o vento, brinquei com a liberdade. Hoje foi mais um dia de viagem na minha vida. É impressionante como me sinto bem, realizada, feliz, completa, equilibrada, transformada em dias de viagem. Eu não sei bem ao certo como tudo isso começou, só sei que sou muito grata por este sentimento e me sinto privilegiada e abençoada pelos caminhos percorridos e pelas aventuras futuras. Eu gosto de muita coisa nesta vida, já amei muito, ainda amo, mas o que eu mais amo mesmo é viajar, sair por aí, pôr os pés na estrada. "...Eu quero sair de manhã, eu quero seguir a estrela, eu quero sentir o vento,
E você? O que é pra você viajar? Qual é a sensação de estar em movimento, de estar "de passagem" ? João Guimarães Rosa escreveu duas frases que resumem muito bem o que significa viajar para mim: - "O real não está nem na saída nem na chegada: ele se impõe pra gente é no meio da travessia" e "O rios não querem chegar a nenhum lugar, eles só querem ficar mais largos e profundos" . A música e a poesia são duas coisas que fazem parte das minhas viagens. Na verdade, as viagens ficam registradas, além das fotografias, na minha memória como filmes, não daqueles que a gente vê em casa, mas daqueles que a gente vê no cinema, naquela tela gigante com som digital, no escuro. Em uma dessas viagens, ouvi de alguém, que os melhores momentos não podem ser fotografados. Muitas vezes prefiro não tirar certas fotos, pois apesar de todos os recursos disponíveis, sempre acho que faltarão sons, palavras, resoluções para expressarem o momento. Dia desses fiquei muito emocionada quando fui ver no cinema o filme "Deus é Brasileiro" de Cacá Diegues e João Ubaldo Ribeiro. Gravado no rio São Francisco, bem na fronteira entre Alagoas e Sergipe - litoral, sertão e floresta.Coincidência ou não, eu estava por lá quando as filmagens aconteciam, era novembro de 2001, primavera. Pra mim não existe sensação melhor do que descobrir novos lugares, conversar com outras gentes, mudar de clima, provar outros sabores, ver novas paisagens, fazer as pazes com o tempo, ver o sol nascer, o pôr-do-sol, a lua chegar, as estrelas brilharem, banho de cachoeira, os pés no chão, a massagem das ondas, o balanço do mar, a limpeza da chuva, o beijo do vento, o calor do fogo, o abraço do rio ; tudo isso pra mim é viajar, tudo isso para mim é viver. "... Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver". ("Mar sem fim"- Amyr Klink)
14/04/2005 – Atibaia - São Paulo
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