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Casar, sentar, mudar, divorciar – verbos pronominais

M. T. Piacentini


Nestes cinco anos de Língua Brasil tivemos algumas consultas sobre o uso dos pronomes reflexivos ME, TE, SE, NOS junto com verbos tradicionalmente pronominais como os do título. Há mesmo necessidade de usá-los? Ou seja, o correto é “ela casou” ou “ela se casou”? “Sentou-se” ou “sentou” um minutinho?

Ao pesquisar em dicionários (comuns e de regência), descobre-se que há possibilidades diversas; já existe um aval para a eliminação, mesmo no nível culto, do pronome reflexivo junto com os verbos citados (salvo ‘divorciar’, que sempre é apresentado como pronominal: divorciar-se). Isso quer dizer que é facultativo o uso do pronome nestes casos:

CASAR

Jucira anunciou que vai (se) casar. Casei (-me) cedo. Li que Mara vai (se) casar com Mauro.  Pedro e eu vamos (nos) casar brevemente.

SENTAR

Jucira preferiu sentar (-se) no sofá. Sentei (-me) e descansei um minuto. Chegamos cedo e (nos) sentamos à mesa principal.

MUDAR

Jucira vai mudar (-se) para outra casa. Resolvi (me) mudar para Timbó. Decidimos que (nos) mudaríamos daqui tão logo saísse a aposentadoria.

Mesmo no caso do verbo “divorciar-se” há uma tendência – por contaminação sintática, pois as construções lingüísticas se cruzam, se mesclam, se interinfluenciam – a suprimir o pronome,  de que é prova a declaração à revista Istoé, em maio de 2005, da nossa grande escritora Lygia Fagundes Telles: “Divorciei, casei outra vez, com o Paulo Emílio Salles Gomes”.

O cuidado que se deve ter, para que o texto seja considerado bom e agradável de ler, é com a clareza em primeiro lugar. Por exemplo, se você escreve “finalmente resolvi mudar”, não se sabe qual o sentido: “mudar o quê?”; portanto, se for “deslocamento de um lugar para outro”, escreva “finalmente resolvi me mudar”.  Depois vem a sonoridade da frase – muitas vezes “nos mudamos” soa melhor do que “mudamos”. Isso significa que não é preciso haver uniformidade, isto é, empregar o pronome todas as vezes ou suprimi-lo sempre. Pode-se variar no caso dos verbos casar, sentar e mudar.

No mais, é recomendável usar os pronomes reflexivos sempre que a situação o exija. É melhor e mais culto falar “ele se formou na USP” do que “ele formou na USP”, só para dar outro exemplo.

Ainda sobre o uso dos pronomes oblíquos (reflexivos e não-reflexivos), temos duas consultas:

Aqueles dois se batem e se opõem“ está certo? Ou o correto seria  “Aqueles dois se batem e opõem“

Se puderes me ajudar eu ficarei muito grato. Há algum erro gramatical  na seguinte frase: “Há de se saber comunicar-se”?

Quando se empregam em seqüência dois verbos usados com pronome proclítico, as duas formas ou modelos são corretos: se batem e se opõem / se batem e opõem. O mais estilístico, porém, é não repetir o pronome oblíquo quando este vem anteposto ao primeiro verbo:

- Aqueles dois se batem e opõem.
- Ele se rasgava e desfazia em elogios.
- As células se expandiram e modificaram.
- Nós o vimos e saudamos com efusão.
- Não o quero nem desejo mais.
- Há de se saber comunicar!

No caso da última frase, pode-se lhe dar uma outra redação: Há de saber comunicar-se, em que o sujeito não é indeterminado, mas sim implícito (oculto): [ele] há de saber comunicar-se.

Sobre a autora:

Maria Tereza de Queiroz Piacentini é catarinense, professora de Inglês e Português, revisora de textos e redatora de correspondência oficial há mais de vinte anosEm 1989 foi responsável pela revisão gramatical da Constituição do Estado de Santa Catarina e no ano seguinte publicou artigos sobre questões vernáculas em diversos jornaisRetoma agora a publicação de colunas semanais com temas atualizados, em vista da experiência adquirida e das inúmeras consultas que lhe têm feito pessoas de todo o País depois que lançou o livro Só Vírgula Método fácil em 20 lições (UFSCar, 1996, 164p.)Também teve publicados, em 1986, dez módulos da Instituição Técnica Programada ITP, Português para Redação, edição esgotada.

Hompege: www.linguabrasil.com.br



Matéria publicada em 01/07/2006   - Edição Número 83