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Elogio da Má Música Tradução de Eduardo Teixeira Nunes
Deteste a má música, mas não a despreze. Como ela é tocada e cantada mais, muito mais apaixonadamente que a boa, tanto mais que ela pouco a pouco foi se tornando repleta dos sonhos e das lágrimas dos homens! Que ela lhes seja por isto venerável. Seu lugar, nulo na história da arte, é imenso na história sentimental das sociedades. O respeito eu não digo o amor pela má música não é somente uma forma daquilo que poderíamos chamar de caridade do bom gosto ou seu ceticismo, é ainda a consciência da importância do papel social da música. Quantas melodias, sem valor aos olhos do artista, encontram-se entre as confidentes eleitas pela multidão de jovens românticos e enamorados. Quantas Bagues dOr e Ah! Reste longtemps endormie, cujas partituras são tremulamente viradas a cada noite por mãos recém-atingidas pela celebridade, são pranteadas pelos mais belos olhos do mundo com lágrimas que fariam o amante mais puro invejar tão melancólico e voluptuoso tributo engenhosas e inspiradas confidentes que enobrecem a tristeza e exaltam o sonho, e em troca do segredo ardente que lhes é confiado dão a embriagante ilusão da beleza. O povo, a burguesia, o exército, a nobreza, assim como têm os mesmos carteiros, portadores da infelicidade que os atinge ou da alegria que os recobre, têm os mesmos invisíveis mensageiros do amor, os mesmos bem-amados confessores. São os maus músicos. Aquele odioso ritornello, que todo ouvido bem nascido e bem educado se recusa imediatamente a escutar, recebeu o tesouro de milhares de almas, guarda o segredo de milhares de vidas, das quais foi a inspiração viva, o consolo sempre pronto, sempre entreaberto sobre a mesinha do piano, a graça sonhadora e ideal. Tais arpejos, tal rentrée fizeram ressoar na alma de mais de um apaixonado ou de um sonhador as harmonias do paraíso, ou a própria voz da bem-amada. Um livreto de romances ruins, usado por ter servido muito, deve nos tocar como um cemitério ou como um vilarejo. Que importa que as casas não tenham estilo, que os túmulos desapareçam sob as inscrições e os ornamentos de mau gosto? Desta poeira pode alçar-se, diante de uma imaginação simpática e respeitosa o suficiente para calar por um instante seus desdéns estéticos, a revoada de almas levando no bico o sonho ainda verde que lhes fazia pressentir o outro mundo, e chorar ou sorrir neste aqui.
Sobre o tradutor: Nascido em 1957 no Rio
de Janeiro, Eduardo cresceu e vive em São Paulo, onde se formou em Ciências Sociais pela
USP em 1982. Fluente em cinco línguas, tem atuado desde então como consultor de
redação e comunicação social, redator publicitário, redator técnico, tradutor de
textos técnicos e literários e escritor de sua própria obra literária. Homepage: http://www.alfalira.com/index.html e-mail: Edu@Alfalira.com
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