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Elogio da Má Música

Tradução de Eduardo Teixeira Nunes


Eduardo Teixeira Nunes

Este notável trabalho de bordado, no qual Marcel Proust demonstra toda sua ironia e condescendência para com a má música, seu público e até mesmo os músicos que a executam, é curto o suficiente para convencer Eduardo a fazer esta ousada tentativa de tradução para o português e o inglês. A predominância da voz passiva na estruturação do fraseado, diretamente derivada do estilo característico do autor no original em francês, não deve desencorajar o leitor. Antes, deve ser vista como uma amostra da personalidade única de Proust.

Deteste a má música, mas não a despreze. Como ela é tocada e cantada mais, muito mais apaixonadamente que a boa, tanto mais que ela pouco a pouco foi se tornando repleta dos sonhos e das lágrimas dos homens! Que ela lhes seja por isto venerável. Seu lugar, nulo na história da arte, é imenso na história sentimental das sociedades. O respeito — eu não digo o amor — pela má música não é somente uma forma daquilo que poderíamos chamar de caridade do bom gosto ou seu ceticismo, é ainda a consciência da importância do papel social da música. Quantas melodias, sem valor aos olhos do artista, encontram-se entre as confidentes eleitas pela multidão de jovens românticos e enamorados. Quantas Bagues d’Or e Ah! Reste longtemps endormie, cujas partituras são tremulamente viradas a cada noite por mãos recém-atingidas pela celebridade, são pranteadas pelos mais belos olhos do mundo com lágrimas que fariam o amante mais puro invejar tão melancólico e voluptuoso tributo — engenhosas e inspiradas confidentes que enobrecem a tristeza e exaltam o sonho, e em troca do segredo ardente que lhes é confiado dão a embriagante ilusão da beleza. O povo, a burguesia, o exército, a nobreza, assim como têm os mesmos carteiros, portadores da infelicidade que os atinge ou da alegria que os recobre, têm os mesmos invisíveis mensageiros do amor, os mesmos bem-amados confessores. São os maus músicos. Aquele odioso ritornello, que todo ouvido bem nascido e bem educado se recusa imediatamente a escutar, recebeu o tesouro de milhares de almas, guarda o segredo de milhares de vidas, das quais foi a inspiração viva, o consolo sempre pronto, sempre entreaberto sobre a mesinha do piano, a graça sonhadora e ideal. Tais arpejos, tal rentrée fizeram ressoar na alma de mais de um apaixonado ou de um sonhador as harmonias do paraíso, ou a própria voz da bem-amada. Um livreto de romances ruins, usado por ter servido muito, deve nos tocar como um cemitério ou como um vilarejo. Que importa que as casas não tenham estilo, que os túmulos desapareçam sob as inscrições e os ornamentos de mau gosto? Desta poeira pode alçar-se, diante de uma imaginação simpática e respeitosa o suficiente para calar por um instante seus desdéns estéticos, a revoada de almas levando no bico o sonho ainda verde que lhes fazia pressentir o outro mundo, e chorar ou sorrir neste aqui.

 

Sobre o tradutor:

Nascido em 1957 no Rio de Janeiro, Eduardo cresceu e vive em São Paulo, onde se formou em Ciências Sociais pela USP em 1982. Fluente em cinco línguas, tem atuado desde então como consultor de redação e comunicação social, redator publicitário, redator técnico, tradutor de textos técnicos e literários e escritor de sua própria obra literária.
Em 1992 foi premiado com o segundo lugar no Concurso de Contos promovido pela Associação Recreativa Júlio Mesquita, órgão dos funcionários das empresas do grupo S. A. O Estado de S. Paiulo, com o conto O Afiador de Almas.
Em Novembro de 1993 concluiu o primeiro romance, intitulado
Alfalira-Uma Aventura Do Pensamento.
Em 1995 completou o primeiro volume de contos, intitulado Contos Adversos.
Atualmente trabalha no segundo romance, Umbrae.

Homepage: http://www.alfalira.com/index.html

e-mail: Edu@Alfalira.com

 

 



Matéria publicada em 01/10/1999   - Edição Número 2