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Mito e Teatro Grego Sara Pereira Lopes
É possível afirmar que a tragédia grega teve como finalidade principal o ensinamento e não a emocionalidade. Desse ponto de vista, parece fundamental o fato de sua temática ter permanecido sempre ligada à mitologia helênica, uma das mais geniais concepções que a humanidade já produziu. A raiz do mito está na tentativa humana de penetrar, pela imaginação, os esconderijos do que não se pode explicar de outra maneira: o mistério da existência. A narrativa mítica esconde um núcleo que encerra uma verdade. O mito relata uma história verdadeira da criação do mundo, do homem, de uma lei, de múltiplos eventos cuja memória cronológica se perdeu, mas que se preservam numa memória mítica. Para a consciência mítica, tudo deve ter tido a sua origem. Se ela ficou encoberta pela névoa do tempo e do mistério, isto não significa que não possa ser recuperada pela imaginação. A realidade das coisas demonstra a repetição das origens, nos ciclos da vida. A temporalidade dos acontecimentos pouco importa. Interessa o fato de que eles se repetem: por isso são perenes. O mito é esta história perene: a história dos acontecimentos que são eternos porque se repetem. Reconhecendo, em cada ato cotidiano, uma participação nos grandes ciclos da vida que não são mais que a repetição dos ciclos/modelos narrados pela mitologia , o homem participa da eternidade mítica e supera sua transitoriedade. Integrado em suas origens ele, se não consegue sobreviver, consegue viver integralmente. Assim, a própria morte faz sentido: é o fim da última repetição, a suprema integração nas origens. Esta reintegração do homem com a vida e a morte pouco se distingue da integração total com a natureza. Por meio da mitologia desde a mais primitiva até as modernas formas de ficção científica - o homem sempre buscou conpensar a distância que o separa do universo irracional. O mito preenche este abismo ao misturar todas as origens. Por seu caráter fundamental, o mito conserva, até hoje, vitalidade e presença: ele trata dos mesmos problemas existenciais, morais e sociais que continuam a afligir a humanidade. Foi sobre esta matéria que trabalharam os dramaturgos gregos, em cada período e, por suas obras, é possível acompanhar o desenvolvimento da sociedade grega, de seus conceitos, de seu comportamento. Toda arte grega, aliás, utilizava-se do mesmo material e, a cada transformação radical da civilização helênica, registrava as modificações do mito. Assim, os deuses que aparecem nos poemas de Homero diferem muito das tradições anteriores: são diretamente interessados nas questões humanas e gostam de interferir nas vicissitudes dos mortais.
O primitivo cortejo dionisíaco valia-se do ditirambo popular: o canto feito de elementos alegres e tristes, que narrava aspectos, alguns dolorosos e outros felizes, da vida de Dioniso. Este canto em coro acabou se definindo como trágico e dele se originou a tragédia: representação viva que narra os fatos acontecidos no plano mítico. O coro que, a princípio, cantava em uníssono, dividiu-se em perguntas e respostas, ainda sem caráter dramático. Um corifeu coordenava esse diálogo. Em algum momento uma voz se distinguiu do canto coletivo, tornando-se uma unidade autônoma e recebendo as respostas do coro: surgia o hypokrites, o ator protagonista, simbolizado por Téspis. Representando, o ator provocava sentimentos no coro popular que, então, transformava-se em platéia. Todos lhe respondiam, concordando ou discordando, cantando com o coro. Ao longo do tempo, os dramaturgos foram introduzindo outros elementos, antagonistas, até que a cena grega fixou o número de três atores no centro da representação. Do mito de Dioniso as tragédias estenderam-se a toda a mitologia. A fusão do mito divino com o mito heróico tem sua lógica: os heróis eram a ligação entre o mundo humano e o divino, além de simbolizarem a existência humana naquilo que ela tem de mais altivo e profundo. Criando heróis, a imaginação popular protestava contra as injustiças. Colocar os heróis no palco, frente aos deuses e o destino, exaltava os ânimos e convocava os cidadãos a uma nova maneira de pensar e de agir. As aventuras e desventuras dos heróis relacionam-se, sempre, ao rompimento de uma ordem divina, estabelecida antes dos homens (hybris). Pelo sofrimento (phatos) o herói constrói seu comportamento íntimo e sua atitude (praxis), onde se origina e sobre a qual se organiza a ação dramática. A moral da fábula apresentada não é o assunto descrito; é o conflito que ela encerra: homens x homens, homens x deuses, homens x idéias. Trabalhando sobre matéria familiar à assistência, cabia ao autor encadear os acontecimentos e encaminhar seu texto de modo a atualizar o mito, mantendo a platéia num processo de projeção/identificação entre seus mitos e a realidade, levando-a, pelo terror e pela compaixão, à purgação de suas emoções e à catarse final. O período áureo
das tragédias foi o século V a.C., quando eram apresentadas em concursos, selecionadas e
suas montagens patrocinadas pelo Estado.
Sara Pereira
Lopes
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