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História em Crise: contextos para uma leitura de 'Paraíso Perdido' de John Milton Luiz Fernando Ferreira Sá
O meu objetivo principal nesse ensaio é sugerir que a história inglesa do século XVII é um contexto importante para a leitura de Paraíso Perdido de John Milton. Um outro objetivo desse ensaio introdutório, um objetivo mais pretensioso e relacionado com uma atividade crítica futura, seria propor que essa mesma história, uma história em crise, pode ajudar o leitor desse texto central no cânone inglês a resgatar o épico de John Milton para lançá-lo em seguida numa conversação pós-colonial. Literatura e história estão ambas repletas, aqui e ali, de um gênio imaginativo, de uma dimensão política e de um centro cultural. Então é a partir desse gênio, dessa dimensão e desse centro que a história inglesa do século XVII será brevemente relatada, ou seja, história relatada qua contexto literário em relação a Paraíso Perdido. O ponto de partida para tal contexto será a visão de que “a história inglesa no século XVII se encontra em seu estado normal: em crise" (Hill 1986: 16)[1]. A série de acidentes e coincidências desse século inglês não é colocada de lado como meros incidentes, mas antes de tudo, como uma crise política, econômica e cultural. Nada melhor que o signo da “crise" para me guiar nesse contexto histórico do paraíso de Milton. Crise é a palavra de ordem na Inglaterra do seiscentos, crise é a conseqüência indelével de Paraíso Perdido de Milton e crise também é o índex infame dos estudos pós-coloniais. De qualquer forma, os valores conservadores da era elisabetana – hierarquia e a grande “Cadeia de Seres", humanismo cristão e a escolástica em geral – não estarão tão fixos e imutáveis no decorrer do século XVII. As implicações radicais do protestantismo inglês, a tensão entre a supremacia da consciência individual e as cambiantes autoridades políticas e religiosas, a secularização da autoridade religiosa e até mesmo as idéias relativas a um deus talvez não benevolente de Thomas Hobbes fizeram com que um centro conservador se desestabilizasse. A era elisabetana, ou melhor ainda, “a época de Shakespeare nos mostra menos uma submissão complacente aos valores ortodoxos e mais uma profunda atitude de questionamento" uma vez que, “a noção de que cada ser humano deve manter-se no seu lugar era difícil de harmonizar com uma crescente inflação na estrutura social. Daí, as lealdades feudais sucumbiram" (Hill 1986: 19, 20). Uma divisão cultural estava se formando a partir do reinado de Elizabeth I: de um lado, o otimismo inerente aos “modernos" que se sentiam melhores que os “antigos" e do outro lado, o otimismo inconseqüente dos que acreditavam num uso co-operativo da ciência como um meio de aliviar a miséria humana: “isto criou uma insatisfação ‘divina’ em relação ao status quo e prometeu uma certa abundância em áreas que sempre foram um nicho de escassez" (Hill 1986: 20). Não podemos esquecer que o período antes de 1640 e depois de 1660 oferece um espectro estreito de opiniões uma vez que a sociedade inglesa do seiscentos se encontra sob censura; e uma sociedade sob censura “só" pode se pensar “normal". No entanto, durante o interregno, ou seja, entre os reinados de Charles I e Charles II, com a ditadura de Cromwell intermediando, um amplo espectro de opiniões, e opiniões conflitantes e geradoras de mais crise, foi expresso. Tal descarregamento de idéias ou liberdade de discussão gerou uma crise que pode ser traduzida como
Se não havia uma revolução na acepção primeira da palavra, havia ao menos uma crise sem precedentes. Daí, os contrastes entre o ideal e o real, entre o ideal de Rei e Senhor e os seus exemplos na realidade, são recorrentes na época elisabetana e no período jacobino (as diferenças, por exemplo, entre Richard II e Henry IV ou Henry VII e Henry V de Shakespeare). James I, o sucessor de Elizabeth I, chegou mesmo a lembrar a seus ministros que a autoridade deles poderia ser questionada, caso a sua figura “real" não fosse preservada de ataques. Caso semelhante aconteceu com Charles I, sucessor de James I, que antes de ser atacado publicamente como traidor da pátria e posteriormente levado à forca, teve sua esposa, uma estrangeira, acusada de estar sabotando a nação inglesa.
O direito divino tinha de ser proclamado de novo e de novo na dinastia Stuart porque eles estavam sendo questionados tanto com Elizabeth I, quanto com James I e finalmente com Charles I. Poder absoluto e divino para o Rei ou Rainha tinha de ser conquistado e mantido com muita abundância material. Essa abundância não se encontraria em Londres ou no interior do país, mas no comércio internacional, primeiro com navios piratas, depois com comboios ocupados de capital cultural e político. Essa política alter-nativa de controle político se deu na seguinte declaração:
A união duradoura entre protestantismo e capitalismo era a grande virada que o poder Carolino precisava. No entanto, a guerra contra a Espanha, pelos motivos óbvios por controle do comércio marítimo, não era tão agradável assim aos olhos de Charles I. Com o rei morto, essa política alter-nativa foi levada adiante pela Commonwealth britânica e Oliver Cromwell, logo que a dita Revolução Republicana se achou capaz de tornar disponível uma enorme frota de navios mercantes. “Junto com o Ato de Navegação de 1651, o ‘Projeto Ocidental’ de Cromwell previu um século e meio de política internacional agressiva que tornaria a Inglaterra uma super nação." (Hill 1986: 23-24). “Super nação" no exterior, mas uma nação fragmentada e em constantes crises no seu interior. A nação inglesa do seiscentos é “uma sociedade unida na sua vontade de mudança política, mas profundamente fragmentada em relação ao quê deveria ser mudado [...]. O decênio de 1640 faria a difícil transição [...] em direção a um mundo moderno." (Butler 1984: 287-88). Esse “mundo moderno" inglês do Seiscentos é indiscutivelmente atrelado a crises e mais crises, com escolhas funestas (enforcar um rei) levando a outras escolhas funestas (a tirania violenta de Cromwell) e com conseqüências advindas de um épico derrisório (restauração com Charles II que foi uma era de fausto e luxúria à francesa e uma era de muito ressentimento e angústia). Há muito planejando o seu épico dos épicos, Milton somente iria finalizá-lo e publicá-lo em 1667, depois de haver participado ativamente nas discussões “pré-revolucionárias", depois de haver participado do governo de Cromwell e depois de haver se decepcionado com a política inglesa. Jogado no ostracismo e praticamente esquecido, sofrendo de gota e cego, o velho poeta não tinha o hábito de colocar os seus inimigos políticos no inferno, como Dante o havia feito. Mas o velho poeta parecia pensar que todos aqueles que não deram conta de sua liberdade de escolha, ou não exerceram sua fé e razão respeitando sua liberdade e uma possibilidade de escolha, independente de seus méritos individuais, esses sim passariam uma eternidade prostrados no “darkest and deepest gulf of hell" (Milton 1953-82: 616-17). Desse profundo golfo infernal, de uma história em crise e de um texto que fala de perdas, faltas e crises, é que proponho como um possível início de uma leitura bem-informada ou contextualizada de Paraíso Perdido frente ao momento (também de crise) pós-colonial.
Bibliografia: Butler, M. Theatre and Crisis, 1633-1642. Cambridge: Cambridge University Press, 1984 Hill, Christopher. Literature and the English Revolution, The 17th Century, v. 1, n. 1, p. 15-30. Jan. 1986. Milton, John. Of Reformation Touching Church-Discipline in England (1641). In: Wolfe, Don M. (Ed.). The Complete Prose Works of John Milton. New Haven: Yale University Press, 1953-1982. 8 vols. Vol. 1.
Sobre o autor: Luiz Fernando Ferreira
Sa é Graduado em Comércio Exterior, pela Faculdade de Ciências Gerenciais
Una, FCG-UMA, Mestre em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Minas
Gerais, UFMG, Belo Horizonte e Doutor em Estudos Literários, pela Universidade
Federal de Minas Gerais, UFMG, Belo Horizonte. Atualmente é Professor
Adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, e desenvolve atividades
nas áreas de: Graduação, na Faculdade de Letras, Departamento de Línguas Anglo-Germânicas;
Pesquisa e Desenvolvimento, na Faculdade de Letras. É representante do
Departamento de Anglo-Germânicas junto ao CESP (Centro de Estudos Portugueses)
da FALE; membro da Banca de Inglês Instrumental para o Curso de Pós-Graduação
em Letras - Estudos Literários; membro suplente de colegiado superior - Colegiado
de Graduação; membro suplente de conselho de unidade - Câmara Departamental.
Possui diversos artigos completos publicados em periódicos nacionais e internacionais. E-mail:saluizff@hotmail.com.br [1] As citações ao texto de Hill e Butler são traduções de minha autoria.
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