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Sombra Fabíola Assenço Haffner
Na parede do quarto estão as poses mais belas de sua lembrança. No assoalho um pedaço de um carpete lavado com manchas de bebida de rico. É belo. Mas é sujo. Do teto sem forro caem pequenos insetos que não arrumam sua cama ao levantar-se pela manhã. O desjejum é um amargo gosto da pasta de dente que já acabou. O jornal, bem, o jornal substituto do papel higiênico, conta coisas que as carnes do açougue não sabem. E não há mais carne. Um conto de fadas começa com a tragédia, mas este sublima-se pela falta de amor próprio da personagem. Não há príncipe, pois não se trata de uma princesa. Plebéia de mãos vazias e falta de ânimo. Pessimista, reza para que chova e o telhado seja lavado. Pouco lhe importa a enchente e o barro. Pouco lhe importa a vida. Florisca é assim e pouco lhe importa. Levanta antes do sol e tem um dia melhor do que o de seus vizinhos. Trabalha numa livraria, mas pouco lhe importa. Diz que trabalharia melhor sob o sol do cerrado, de onde viera. Na cidade dos presidentes teve pai pedreiro e mãe lavadeira. Não tinha irmãos graças ao seu parto complicado. O pai era triste por causa disso, queria um filho homem para lhe ajudar no serviço. Florisca fez sua parte, sumiu com algumas mudas de roupa lavada. O ônibus que toma até o serviço podia estar mais cheio, podiam ser dois ônibus, podiam ser dez quarteirões a pé ou mais. Nada abençoava seu humor, sempre igual, nem bom, nem mau, nem humor. Passada, essa é a palavra. Florisca é uma moça passada, sem fivela, nem broche. Mal penteia os cabelos. Pelo menos são limpos, Florisca tem horror a mau cheiro. Ainda bem! Isso constitui algo bom nela. Hoje ela saiu sem bolsa. Vai carregar o pouco que tem nos bolsos de uma calça de brim roxo. Ganhou do lixo, remendou e cerziu. Ainda está boa de uso, mas é tão feia! E a blusa de moletom então! Seus vizinhos não tem bom gosto mesmo. Mas Florisca não passa frio. Chega ao trabalho e o “Bom dia” sai atravessado. O patrão não liga, Florisca não é simpática, porém não trata ninguém mal. Parece absurdo, mas é verdade. Os clientes até elogiam sua objetividade e sua economia de tempo. Na cidade que não pára é um grande mérito, apesar de Florisca vender só aquilo que lhe pedem. Não é uma vendedora do tipo que lhe enrola até lhe ver enforcado na caixa registradora. O patrão não liga, Florisca é boa na faxina e na organização dos livros na prateleira. Herança dos pais, os panos de chão são impecáveis e os volumes parecem tijolos numa parede bem erguida. A porta da loja se abre e o mensageiro dos ventos avisa: trabalho. Florisca: - Bom dia, em que posso ajudá-lo? Aprendeu essa frase numa loja do Mc Donalds. Cliente: - Eu preciso de um livro sobre organização de arquivos e cadastros. Por dentro Florisca ri e pensa: que estúpido, pra quê um livro sobre o alfabeto! Mas ela nem se arrisca a dizer como se organizar um arquivo sem que o cliente compre o livro. Ele pediu, ele terá. Para Florisca tudo parece muito simples, sem pestanejar chega a estante exata e não move nem mais um livro do que o necessário. Cliente: - É só esse o que você tem? Florisca: - Não senhor, mas este é o melhor. Arquivos organizados em ordem alfabética, numérica e por cores. Cadastros padrões, tradicionais, contemporâneos e sofisticados, para todos os tipos de escolaridade e profissão. Que danada! Não é que ela sabe mesmo o que faz! O cliente sai da loja tão satisfeito que volta em menos de dois dias atrás de um bom livro sobre contabilidade. Tililim tililim. Florisca: - Bom dia, em que posso ajudá-la? Cliente: - Olha, cê me vê aí um livro sobre exercícios aeróbicos e um de emagrecimento? A mulher lhe parecia com o Rei Momo do último carnaval, mas Florisca é esperta e lhe vende o manual completo do Spa das Antas. De uma forma ou outra, foi o que ela pediu. Mas Florisca avisa: - Todo exercício físico e toda dieta devem ser acompanhados por um médico. - Claro! E se a mulher tem um troço qualquer e processa a livraria por indução negligente ao suicídio? Florisca nem olha para o relógio, não é daquelas funcionárias afobadas que quer logo que o dia acabe. Tem a felicidade de não pensar no amanhã. Cada dia é um dia e nada mais. Sente que a vida não é inimiga da morte, mas parceira, por isso não pensa no que será o futuro. Se estiver viva ou morta vai dar no mesmo. Tililim tililim. - Tia, eu quero a história daquela moça que fura o dedo e dorme e depois conhece um príncipe e se casa com ele e é feliz para sempre! Tem? Florisca não perde tempo em entender por que a menina quer o livro da Bela Adormecida se já conhece sua história do princípio ao fim. - Pronto, filha? A imagem é um misto de Burt Lancaster com Mel Gibson. Florisca treme e sua frio. O coração bate como um bumbo fora do compasso no desfile de 7 de Setembro. É um mal. Derruba o livro no chão e perde a noção do que está fazendo quando se agacha para pegá-lo. A imagem se abaixa e pergunta: - Está tudo bem? Você está pálida, quer que chame um médico? Florisca: - Não, senhor. Obrigada, foi apenas uma queda de pressão momentânea. O patrão chega perto para ver o que está acontecendo. Uma novidade a respeito de sua funcionária lhe parece algo para a televisão registrar. Uma queda de pressão momentânea? Que palavreado bonito para uma moça suburbana. Mas Florisca havia feito o primeiro grau, pouca coisa, mas o bastante. Talvez ela fosse uma espécie de gênio incompreendido. Poderia ela ter lido tantos livros quanto os da livraria? Florisca: - É esse o livro que você quer, bonitinha? Bonitinha? Hummm... - É sim, moça. Muito obrigada. - Disponha. O senhor quer algum livro também? - Não, obrigado. Ando sem tempo para ler. - Poderia levar este, então. É um livro de rápida leitura e muito senso crítico. Tem passagens humoradas e um belo linguajar. - Ah, claro. Com tantos méritos, ele merece ser lido. Você já o leu, pelo visto. - Sim, senhor. - Vou levá-lo. - E para a mulher do senhor? Um livro é um presente agradável. - Sou viúvo, mas obrigado. Muita coisa está para se ver em Florisca. Uma mudança brusca como essa é fato pra se especular. O patrão: - Florisca? - Sim, senhor? - Você está bem, mesmo? Vendeu um livro a mais para o cliente e ainda ficou de conversa com ele. - Nada demais, senhor. Nada demais, será? Não, tudo demais. Ao sair do trabalho, Florisca anda aérea, distraída, quase flutua por entre os camelôs. Olhando-a assim, parece estar participando de uma filmagem, com trilha sonora e tudo mais. “Como feia na vitrine...”, feia? Digamos, rústica. Pobre não tem luxo pra se arrumar, então, pobre acaba sendo chamado, constantemente, de feio. Um erro, engano fatídico, às vezes olho revistas de impacto social e percebo quantas mulheres, homens, crianças lindas que a sujeira, os maus tratos, a miséria escondem. Bem, Florisca desafiava, neste momento, toda a sua concepção interna, arriscando um sorriso, ora um olhar brilhante, um passo altivo numa sarjeta qualquer. Uma cena estonteante acontece: Florisca passa a mão pelos cabelos olhando para o vidro de um carro. Será que passou por sua mente um desejo de se saber como ela seria aos outros? Não sei. Ao chegar em casa, pegou uma escova de cabelos velha e pouco usada e começou a se pentear. Era uma nova mulher. De olhos arregalados e pretos, cabelos com brilho de água gelada, pele lisa de quem nunca usou um creme qualquer. 28 anos. Uma história de 50. Uma virgindade de 13. Mas não era ingênua, era esperta e digna. Penso que poderia ter se entregue à vida de camélia quando chegou ao meio dos arranha-céus. Em vez disso, trabalhou de diarista, auxiliar de cozinha e empacotadeira até chegar à livraria. Onde ouvi dizer que lia para passar o tempo. Está explicado. Uma boa leitora, aquela que não se emociona, não se prende, lê e racionaliza para apenas fugir ao descontrole dos fatos reais. A partir desse dia, tudo estava fora do lugar comum. Não posso descrever a impressão que passou ao seu patrão e companheiros de trabalho. Chegar pontualmente sempre chegava. Mas agora era com uma roupa mais comum à sua idade. Sempre penteada, corada e animada. Com sorrisos longos de dentes brancos. Uma discreta cor nos lábios, comprara aquele batom? Talvez tenha ganhado de alguma patroa e nunca usara. Estes fatos se repetiam diariamente e a cada tilintar do mensageiro dos ventos seus olhos brilhavam na esperança de vê-lo entrar. Sim, Florisca estava apaixonada pela imagem daquele viúvo. Porém, nunca o era. Aos poucos seu entusiasmo pela vida foi diminuindo. Sentiu angústia e ansiedade. Conheceu os limites do humano nas paixões. Fez seu coração ir de pedra a gaivota. Sofreu de amor. E seu amor não mais voltara. Seus cabelos foram voltando ao comum emaranhado. Seus olhares retomaram a opacidade. Seu sorriso foi se fechando e perdendo a luminosidade. Caminhava pelas ruas como antes, rápida, certeira. Não voltou a flutuar. No entanto, o que me afeta profundamente nesta história é que Florisca soube o que é o amor e se entregou de corpo e alma. Estranho, esta frase é usada quando se tem a outro corpo para se entregar. Outra alma para se espelhar. Mas foi absolutamente verdadeiro em Florisca. Sua alma mudou, seu corpo sofreu, sua vida... É triste voltar a olhar para Florisca hoje. Porque parece com uma sombra daquele brilho todo que a logrou. Ela não difere daquela Florisca de antes, a não ser pela certeza de que nunca mais ela se modificará novamente. Flor arisca, ao sol cresceu e se embelezou, tanto e com tamanha força que nunca mais conseguirá isso novamente, voltou a ser cactos e para sempre o será. Sobre a autora: Fabíola Assenço Haffner,
nascida em 07/04/77, em Mogi Guaçu, é formada em psicologia e recebeu o Prêmio
Melhor Conto no Mapa Cultural Local - Assis/SP, com o conto “Sombra”.
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