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Do hábito de (não) ler - Do "Letramento", uma nova arte

Soares Feitosa


Soares Feitosa

Soares Feitosa nos convida a ler, conhecer e integrar o projeto

Envelo-mídia de Poesia, a sementeira!


Dizem que era uma vez um govemo muito forte e que ficou imediatamente fraco – depois caiu – a partir do momento em que um jornal passou a publicar poemas no lugar das matérias censuradas.

Dizem que a Poesia, só ela, tem a força para as grandes mudanças interiores, porque ela, a Poesia, é em si mesma, Oração. E vice-versa. Dizem também que não basta saber ler; e que o pior analfabeto é aquele que sabe mas não lê coisa alguma. E não são poucos. Talvez a maioria. Veja em seu derredor: alguns, formados, os dedos de anéis, e não lêem absolutamente nada.

Este é um projeto "pós-Paulo Freire": pela Poesia, (re)criar, no alfabetizado, o gosto pela leitura.

Partamos do princípio de que sempre nos queixamos da correspondência: atrasos, contas que chegam, dinheiro que não chega, malas-malas-diretas-que-não-sabemos-onde-encontraram-
nosso-endereço, e por aí afora. Trago-lhe a nova idéia do Envelo-mídia de Poesia, a sementeira!

O velho e popular envelope vai conter, no verso, na parte "negra", sem nenhum prejuízo dos endereços, vai o velho envelope trazer um poeminha. Que tal o "Alma minha gentil que te partiste", de Camões!? Ou os "7+7" de Raquel?! Ou ainda alguma coisa de Vinicius ("Separação", por exemplo), de Quintana, de outros poetas líricos, tudo coisa de enternecer?!

Precisamos clarear a comunicação. Aquela sinistra conta de luz, de telefone, o aviso bancário, o contracheque dos salários poucos, tudo isso, mediante o Envelo-mídia de poesia, a sementeira, pode e deve ter outra feição. Requeri a patente, não com o intuito de ganhar dinheiro, mas para evitar que algum sabido nos proíba de fazê-lo.

O fato inconteste é que as pessoas não lêem! Ler é ruim, praticamente não há muito o que ler num horizonte pouco acima do policial e do de futebol. Esta é a proposta "pós-Paulo Freire" – desanalfabetizar o alfabetizado! Àquele que sabe, mas não lê.

Só a Poesia!

Não basta saber ler. É preciso "gostar de ler".

Já deram nome à criança: letramento. Com certeza, com o atraso razoável de sempre, chegará por aqui. Um ramo novo, uma "ciência" nova, como que um pós-Paulo Freire: recriar, nos alfabetizados, o gosto pela leitura. Esse gosto pela leitura dever-se-ia ter formado na infância – daí o belíssimo papel das revistas infantis, Patos inclusos (e o meu deslumbramento, aos 13 anos, chegando das brenhas do meu Ceará, ao Seminário, e, naquela ilha de saber, encontrar, clandestinas, ah bons tempos das coisas clandestinas, a revistinha do Pato, das primeiras, de tão antigamente foi!). Pois bem, passada a infância, a única chance de recuperar o bruto seria pela oração/poesia. É isto que os "letradores" estão pregando: Poesia neles!

E se as pessoas começarem a LER?! As rotativas estarão preparadas? Terão providenciado papel suficiente?! Envelopes na quantidade(?) Qual?

No Nordeste, parece, lemos um pouco mais: o gosto da leitura seria despertado pelo cordel, as cantorias, que as sabemos em forma de oração, inclusive para chamar a chuva e espantar as cobras. Talvez isso explique alguma diferença: a grande produção literária destas terras pobres, donde, natural, dever-se-ia esperar igual pobreza em letras. Mas tem sido, felizmente, o contrário.

José Lins do Rego, dona Rachel, Gerardo Mello Mourão, José de Alencar, José Américo de Almeida, Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Jorge Amado, Artur Eduardo Benevides, Francisco Breunand, José Albano e mais 517 intelectuais de longo curso e muito mais. Todos eles: meninos leitores de "cantorias".

Não leram o Pavão Mysterioso, nem a peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho dos Tucuns? Pois não sabem o que têm perdido. E o Lunário Perpétuo, e os almanaques, aqui os l(ia)emos. Talvez por isso.

Estou inaugurando os primeiros envelopes.

Convido-os!

E se as pessoas começarem a ler?!

Convido-os!

Soares Feitosa, visionário.

PS - A Secretaria de Administração do Estado do Ceará inaugurou o Envelo-mídia de Poesia, a sementeira!, com uma "pequena" tiragem de 200.000! contracheques (ativos e inativos) do mês de setembro, distribuídos em outubro. Custos? Nenhum, pois os envelopes já são impressos normalmente com algumas garatujas que consomem mais tinta do que os poemas!

A seguir, uma rápida descrição do projeto Envelo-mídia de Poesia, a sementeira!:

1. Clareando a Comunicação:

Receber contas é sempre ruim. E por que não clarear a comunicação? Com Poesia, claro ! Conheça o Envelo-mídia de Poesia, a sementeira!
As pessoas (a)guardarão os envelopes!
E se as pessoas começarem a ler?
Eis o Envelo-mídia de Poesia:

2. O Projeto

O projeto não tem custos! Os envelopes já existem há séculos. Impressos, expedidos normalmente, e o "achado" é apenas aproveitar-lhe a parte "preta", o verso, sem nenhum prejuízo para os endereçamentos. E então, essas coisas todas, ruins, as contas de luz, de telefone, os avisos bancários, os comunicados de mala-direta etc., etc., podem (e devem!) estar a serviço do sentimento, da cultura e do crescimento emocional.

3. O Autor

Francisco José Soares Feitosa, brasileiro, casado, auditor fiscal de tributos federais (Ministério da Fazenda) 53 anos, é poeta. Pediu o registro do Envelo-mídia de Poesia, a sementeira, no departamento de patentes, não com o propósito de ganhar dinheiro – dizemos desde a inicial que o projeto não tem custos –, mas tão somente para evitar que a idéia viesse a cair em mãos mercenárias. O registro no INPI está em andamento e o autor vem colocar o projeto à disposição dessa empresa, apenas com uma preocupação, uma santa preocupação, diga-se de passagem:

– e se as pessoas começarem a ler?!

4. Os Poetas

Todos os poemas serão selecionados dentre os autores de língua portuguesa. Far-se-á a integração: Povos de Língua Portuguesa, inclusive os nossos irmãos d'África.
Se temos os poetas? Digamos: Camões, Castro Alves, Gonçalves Dias, Augusto dos Anjos, Femando Pessoa e outros e outros e outros. Tudo coisa de enlevo e engradecimento. Afina, o propósito do projeto é mesmo clarear a comunicação, gerar um clima de boa vontade em desanuviamento das contas de cobrança(s) e culpas.

5. Operação:

Basta aderir! Os poemas, de finíssima categoria, com absoluto respeito aos direitos de autor – só serão publicados aqueles que estejam em domínio público, caso de Camões, para exemplificar, falecido há mais de 60 anos; ou de outros poetas, cuja obra em não estando em domínio público, autorizem expressamente a publicação. Não há riscos. Nem custos. Os poetas sim, se sentirão honrados em serem divulgados!
Bastará encaminhar o texto para a gráfica que já imprime as contas (impressoras de alta velocidade) e sem nenhum custo, pois os poemas já estarão formatados nas medidas úteis do envelope... E viva a Poesia!

 

Fortaleza,  21 de agosto de 1997

Francisco José Soares Feitosa



Matéria publicada em 01/08/1999   - Edição Número 0