Fale conosco | Cadastro | Indique este site | Como publicar | Links Indicados | Editora Komedi | Webka


Bem-vindo(a) visitante 18586299, 02/09/2010 • www.kplus.com.br


Busca no Kplus

Digite um assunto específico que deseja encontrar no site

Matérias

Escola Tombada
Sebastião Ferreira

A estética da concisão
Ronaldo Cagiano

Poesias
Suzy Kiomi Murasaki Pereira

Desenvolvimento da criatividade infantil
Thomas Hohl

Romance ANGÚSTIA - O Escorpião na Alma Graciliana
Silas Corrêa Leite

Serviços

Mais de 70 Jornais Nacionais e Internacionais
Mais de 100 Revistas Nacionais e Internacionais
Mais de 100 Museus do Mundo
Programas de Busca na Internet - Nacionais e Internacionais

Revistas

 

A Dimensão que não termina

Aricy Curvello


Um Preâmbulo

Em Uberaba, centenária cidade do Triângulo, o primeiro número de Dimensão vinha a lume em Julho de 1980. “Uma  simples revista de poesia”,  escreveu então seu editor. O futuro se encarregaria de desmentir o título do primeiro editorial, porém se manteria constante através dos anos o propósito do novo periódico. “E´esse, apenas esse, o compromisso desta revista, mais uma entre tantas, mortas, existentes ou ainda por existir: efetivo compromisso com a qualidade da poesia”.

O compromisso com a qualidade da poesia manteve-se durante os trinta números da publicação. Ao longo dos seus quase vinte e um anos de circulação (Julho de 1980 –  Abril de 2001), é um  marco de sua excelência. Outras balizas foram atingidas no curso do tempo, levando Dimensão a inscrever-se na história das revistas literárias do Brasil.

Editada em cidade do interior, longe do eixo Rio-São Paulo, sofreu a incúria e a miopia do que em nosso país se autointitula mídia cultural. Durante seu período de existência, Dimensão não foi bem noticiada nem devidamente acompanhada pela grande mídia, embora uma revista muitas vezes mais afinada com a poesia contemporânea do que a maioria absoluta das publicações incensadas do Eixo. Nenhuma delas com o alto e belo nível gráfico das dez últimas edições da revista uberabense. Mesmo nas vezes em que dela se lembraram, os respectivos textos jornalísticos, que deveriam ser informativos, revelam um certo teor de desinformação, fato comum na redação dos jornais brasileiros bem como nos espaços em branco no espírito de alguns críticos.

Revista uberabense, em termos, apenas na medida em que sua publicação ocorreu na cidade de Borges Sampaio, Mário Palmério, Campos de Carvalho, e teve de pagar tributo a poetas de importância na paróquia. No entanto, revista brasileira e internacional de poesia, quando conseguiu superar suas origens e circular além fronteiras. Horizonte conquistado com muito denodo, pois se sabe de sua desproteção por parte da grande mídia brasileira (brasileira?) .

Embora tenha publicado poetas de outros países já a partir de sua terceira edição, ocorreu um súbito salto da revista em seu décimo número (Ano V, primeiro semestre de 1985), em cuja  capa anunciou poetas brasileiros, portugueses e argentinos, assim como os criadores da poesia experimental alemã.

Foi, no entanto, a partir de sua vigésima edição (Ano X, 1990) que passou a denominar-se Dimensão Revista Internacional de Poesia . Nesse número vieram poetas do Brasil, Angola, Argentina, México, Portugal e Uruguai, além da seção “A poesia visual na Itália” (com seleção e notas de Enzo Miranelli) que exibiu trabalhos de vinte e dois autores, e o volume se completava  com traduções de poemas de Saint-John Perse, Thomas Wyatt, Pierre Albert-Birot, Carl Sandburg, Sergio Solmi, Archibald Macleish.

Ao tempo de seu número 20, Dimensão contava com alguma circulação em 36 países. No da edição de encerramento (nº 30), em 63 deles.

Também, surpreende-nos  saber que se trata, única e exclusivamente, do trabalho de um só indivíduo, o seu editor.

Um personagem

Guido Luís Mendonça Bilharinho nasceu na cidade de Conquista, no Triângulo, aos 27 de Março de 1938.  Sua biografia nos informa que sua vocação de editor manifestou-se desde cedo. No Colégio Pedro II/ Internato, no Rio de Janeiro, onde fez o curso clássico  -  o antigo segundo grau cursado por aqueles que se destinavam a Letras ou a Direito -  editou o jornal estudantil A Flama, como um veículo dos alunos, vencedor do Concurso Viagem a Portugal, promovido pela administração do Colégio.

Trabalhando no Rio como assistente editorial da José Aguilar, fez também parte do corpo da redação da revista Reserva (órgão oficial da corporação), quando aspirante a Oficial pelo CPOR.

Após bacharelar-se pela Faculdade Nacional de Direito, foi para Uberaba, com o objetivo de ali advogar. Reinstalado no Triângulo, não tardou a tomar a peito editar o suplemento cultural do Correio Católico (então o melhor diário uberabense), com editores como César Vanucci e Jorge Zaidan. Atividade que exerceu, extraprofissionalmente, durante quatro anos (1968-1972). Com a criação da Academia de Letras do Triângulo, Bilharinho assumiu, após Julho de 1972, a obrigação de publicar a revista acadêmica Convergência, trabalho que se estenderá até 1976. Por ocasião do final desse período, quando começou a escrever poemas, Bilharinho despertou para a falta de veículos que os publicassem, na região.

A  revista mineira Poesia

Datado de 15 de Outubro de 1977, surgia em Belo Horizonte o primeiro número de Poesia. Propondo-se quinzenal, com o preço de dez cruzeiros daquele ano, tinha formato de caderno (16 cm. x  22 cm.). Editada pela Fundação Brasileira de Bolsas de Estudos, contava com dois diretores, além dos  quais uma Comissão de Seleção de Poemas, composta pelos então jovens poetas Paschoal Motta, Márcio Almeida e Geraldo Reis.

A edição inicial publicou quinze dos trinta poemas selecionados no VIII Festival de Poesia Falada, de Varginha, cidade considerada a capital do sul mineiro, sendo o certame  promovido pelo Centro Educacional Catanduva. O segundo número de  Poesia estampou os restantes poemas vencedores. Sua terceira edição trouxe trabalhos remetidos de várias cidades de Minas e de outros Estados. Com uma tiragem surpreendente de vinte mil exemplares.

Bilharinho tomou conhecimento de Poesia na mesma ocasião em que se agastava pelo fato de não haver em Uberaba e no Triângulo um bom periódico que publicasse e difundisse os poetas da região. A revista mineira estimulou-o . Inspirando-se  em seu formato de caderno, pôs-se a imaginar como poderia fazer uma revista semelhante existir em Uberaba. Não apenas existir, ele inferia, mas publicar boa poesia, a melhor possível,  a dos melhores poetas do Triângulo, de Minas e do país.

Os primeiros números de Dimensão

Com dimensões de caderno, semelhantes à da belo-horizontina inspiradora, o número inicial de Dimensão foi lançado no segundo semestre de 1980. Trouxe quatorze poetas brasileiros, na seguinte ordem de entrada:  Aricy Curvello, Carlos Nejar, Carlos R. Lacerda, Cid Seixas, Geraldo Dias da Cruz, Guido Bilharinho, Hugo Pontes, Jorge Alberto Nabut, Kátia Bento, Lincoln Borges de Carvalho, Lya Luft, Luís Fernando Valadares, Max Martins, Oswaldo André de Melo. Considerando-se a origem de cada um, os mineiros predominam (oito), dentre os quais os da região triangulina ( cinco), com a presença também de um carioca, uma capixaba, dois gaúchos, um baiano e um paraense.

Com 32  páginas, o primeiro caderno de Dimensão teve composição e impressão a cargo da Pinti - Editora Artes Gráficas Ltda., de Uberaba. Em seu expediente figuram Guido Bilharinho (Editor) e, no Conselho Editorial: Carlos Roberto Lacerda, Jorge A . Nabut, Lincoln Borges de Carvalho. Trouxe as quatro últimas páginas preenchidas com publicidade bem como o verso da última contracapa; na maioria, anúncios de profissionais liberais e empresas uberabenses, com exceção da Minas Caixa.

O n. 2 (primeiro semestre de 1981) incorporaria, entre outros, Lindolf Bell e Neide Archanjo, enquanto no n. 3 (segundo semestre de 1981) compareceriam Francisco Carvalho e Olga Savary.  Nessa última edição surgiu o primeiro poeta estrangeiro em Dimensão, o argentino Nahuel Santana, presença que se repetiria no número seguinte, juntamente com  Virgílio Alberto Vieira (Portugal).

Já em seu segundo ano de vida, a revista receberá sua primeira láurea, o diploma de Mérito Cultural, outorgado pela União Brasileira de Escritores, do Rio de Janeiro.

A  partir daí, a revista iria progressivamente definindo suas características, granjeando respeito nos meios literários, bem como incorporando outros nomes representativos da poesia brasileira, inclusive dos novos que surgiam e, sobretudo, a  partir de determinado momento, das vanguardas. Como não poderia deixar de ser, aos brasileiros se somariam pequenos  e  grandes poetas estrangeiros. Além da qualidade dos poemas publicados, Dimensão começava a também construir sua segunda grande característica, o seu caráter internacional.

O padrão gráfico da revista seguiu inalterado do primeiro número até o sexto (primeiro semestre de 1983). Daí em diante a publicação encorpou-se. A décima edição principiou a inovar graficamente desde a capa (Ano V, primeiro semestre de 1985). O vigésimo número ( Ano X, 1990) veio introduzir definitivamente uma bela sofisticação de recursos gráficos e de editoração.

Os números especiais

Ao longo de sua trajetória, Dimensão lançou três números especiais. O primeiro deles foi a sétima edição (Ano IV, 2º semestre de 1983, com  o título de “Poesia Brasileira Século XX: Breve Notícia Documentada, em que se passeia da Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo até as manifestações dos denominados poetas independentes, marginais ou alternativos (década de 1970).

O nº 25 ( Ano XVI, 1996) foi inteiramente dedicado a dez poetas uberabenses contemporâneos: Carlos Roberto Lacerda, Guido Bilharinho, J.H.S. Henriques, Jorge Alberto Nabut, Juliano Bologna, Marcos Bilharinho, Maria Aparecida dos Reis Lisboa, Olívio Tomain Neto, Teresinha Hueb de Meneses, Tony Gray Cavalheiro. Uma bem cuidada edição em Português/Francês, a única da história de Dimensão que contou com recursos de incentivos à cultura provenientes da Prefeitura Municipal de Uberaba.

O terceiro especial preencheu o nº 26 (Ano XVII, 1997) com textos (sofríveis) sobre movimentos poéticos no interior de Minas bem como o texto consistente de Paulo Bruscky (“Poesia de Vanguarda: Nordeste Brasileiro”) e sua seleção de poemas. O número trouxe também “ Los Quiebres em la Tradición Poética Argentina”, assinado pelo uruguaio Clemente Padin.. A seção final se abre  com  “O Inismo Espanhol”, de Lisiak-Land Díaz, publicando-se logo após três manifestos inistas, assim como “Teoría Poética Inista”, de  Molero Prior (reproduzido de Inispania-Boletín de Notícias  nº 4, Madrid, mar. 1993). Ao final, uma antologia de poetas inistas espanhóis, entre os quais: Antonio Pascual, Encarna Galán, Ibirico, José Luis Campal, Juan Gutman, Juan Orozco Ocaña, Molero Prior, Nel Amaro e Pedro Gonzalves.

Talvez seja também o caso de se assinalar o primeiro número duplo da revista ( o 12/13, de 1986), não mais editado no formato de caderno, mas encorpado, trazendo nomes , além dos nossos, da Argentina e do Uruguai, bem como a poesia do Grupo Frenesi, de Portugal (  Álvaro Lapa, Helder Moura Pereira, Emanuel Jorge Botelho, Jorge Aguiar Oliveira, Paulo da Costa Domingos, Rui Baião, Vítor Silva Tavares) e traduções de Rimbaud, Brecht, Pound, Withman, Lawrence, Montale.

Dimensão e sua trajetória

O fato de Dimensão como uma revista de poesia de qualidade ter existido e circulado durante vinte e um anos é, sem dúvida, único em nosso país. Justamente a exemplaridade histórica dessa publicação  é que nos permite dela extrair alguns parâmetros importantes para nosso autoconhecimento, como o que diz respeito ao consumo de um periódico de poesia no Brasil. Do primeiro número até o nono a tiragem foi sempre de mil exemplares. Do décimo ao décimo-sexto, aumentou para mil e seiscentos, tendo-se estabilizado em mil e trezentos,em média, em relação às quatorze últimas edições da revista. E´  necessário atentar-se para a realidade de que, descontando-se de cada edição a porcentagem de exemplares remetidos para o Exterior, deparamos com  a exigüidade do número daqueles que efetivamente  consomem poesia no  Brasil.

Mencionável também é o fato de que a revista abrigou  poemas visuais pela primeira vez em seu número quatorze (Ano VII , primeiro semestre de 1987), em plena época heróica da divulgação da visualidade entre nós. Saliente-se que Comunicarte , o único periódico visual brasileiro em circulação até hoje, editado por Hugo Pontes, lançou o seu primeiro número em Fevereiro de 1991, em Poços de Caldas, com o apoio do Jornal da Cidade .

Inegavelmente, as edições de Dimensão que assinalaram um ponto crucial de sua trajetória foram as de número dez, vinte e as três últimas. A décima evidenciou a vocação internacional da revista, estampando na capa que trazia poetas brasileiros ao lado de portugueses e argentinos assim como dos alemães da poesia experimental ( Ferdinand Kriwet, Heinz Gappmayr, Ernst Jandl, Helmut Heissenbüttel). {A edição seguinte (nº 11, Ano VI, segundo semestre de 1985) exibia poetas da Espanha e do Uruguai, além da poesia japonesa do século X e traduções de poemas de James Joyce, Paul Celan, Feliu Formosa, Allen Ginsberg.}

Entretatanto foi a partir de seu vigésimo número (Ano X, 1990) , em que passou a ter periodicidade anual , que veio a denominar-se Dimensão Revista Internacional de Poesia, quando já o era há muito na prática e por direito. A edição do primeiro semestre de 1984 ( Ano IV nº 8) já trazia em seu Expediente a indicação de circulação no Exterior, relacionando 32 países, entre os quais: Alemanha, Bélgica, Canadá, Checoslováquia, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Hungria, Inglaterra, Itália, México, Moçambique, Portugal.

Os três últimos números da revista constituem trabalhos primorosos de editoração, extremamente ricos de informação e de bons poemas, incluindo os visuais. O seu formato final já é o de livro, tendo o número duplo 28/29 (referente ao ano de 1999) o total de trezentas e doze páginas em papel especial. Essas três últimas edições  atingiram 66 países, em todos os continentes, incluindo Austrália, China, Japão e Tailândia. Algo inédito em matéria de revistas brasileiras do gênero.

Foi extremamente melancólico para todos receber a notícia de que Dimensão estaria encerrando-se em seu número 30, referente ao ano de 2000, acabado de imprimir-se em Abril de 2001. Ao longo de quase vinte e um anos, os esforços do editor/poeta/crítico de cinema Guido Bilharinho nos haviam dado e ao Brasil esse periódico dificilmente igualável a curto ou médio prazo e que tão grandes serviços prestou à causa da divulgação da poesia brasileira em nosso país e no Exterior.  Com sabor de despedida, seu lançamento ocorreu em Maio de 2001, em Belo Horizonte, sob os auspícios do Suplemento Literário de Minas Gerais e seu editor Anelito de Oliveira, com a presença do Secretário de Estado da Cultura de Minas, o intelectual Ângelo Oswaldo de Araújo, escritores e demais interessados.

Resta-nos a promessa de que serão lançados números especiais como antologias da revista, destacando seus aspectos mais notáveis. Também nos resta o consolo de que, em face à sua história e `a grandeza que construiu e conquistou, passará a haver sempre, de agora em diante, uma Dimensão que não termina.

(Texto revisto e ampliado. Publicado originalmente em O Escritor- Jornal da União Brasileira de Escritores n. 96, S. Paulo, jun. 2001, p.28.)

Sobre o autor:

Aricy Curvello é poeta, ensaísta e tradutor. Seu livro mais recente (Uilcon Pereira no coração dos boatos), que foi coeditado em 2000 pela Giordano (São Paulo) e a AGE (Porto Alegre), recebeu recentemente da União Brasileira de Escritores, do Rio de Janeiro, o Prêmio Joaquim Norberto (Ensaios Editados/Biografia).




Matéria publicada em 01/07/2002   - Edição Número 35