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Abismo de espelhos R. Leontino Filho
Não fujo não, se eu fugir O poeta caminha com as suas máscaras desgarradas pelos confins da terra, inóspito território de todas as aspirações com todos os desencantos inseparáveis da arte de cultivar a solidão. De solidão em solidão vai este ser garimpando os restos de esperança que ainda teimam em permanecer no seu peito dolorido. A esperança por mais luminosidade que possa transmitir não deixa de ser um depósito de dores, dores acumuladas em cada batalha não vencida, em cada vitória adiada, em cada paixão adormecida pelo amor não vivenciado. Sim, a esperança morre primeiro no derradeiro ato de transpor para o real aquilo que a impacienta e a exacerba, como grito incontido, na vontade de fazer e percorrer as estradas do futuro. E o futuro mora amiúde na esperança que passou, no presente que falhou. Todo futuro para o poeta responde pelo nome de exílio. A canção que inventa a existência do humano aninha-se como ave acanhada nos braços de um provável encontro com o outro. Ser, entre tantas coisas, é mergulhar sua própria máscara – persona alheia – no profundo coração do outro, o que constitui a verdadeira viagem às míticas traduções das trevas. O poeta, assim, opera o cirúrgico corte do onírico quando anuncia em versos sua múltipla identidade. Curiosa idéia a de propor colagens ao nome, nome que multiplicado ad finem supera a relativa passividade das ações individuais. O indivíduo mutante que aos pouquinhos, aderência a aderência, vai construindo sua face mais acabada, se é que isso é possível, no instante mesmo em que desfaz o embuste do eu, subjetivando dessa forma, a circunstancial aparência do outro. No espiralado movimento do eu para o outro tudo é linguagem permeada pela obsessão que não se perde nunca em meras confissões, recadinhos de divã, delicadezas de moçoilas casadoiras, exóticas descrições de terras vistoriadas ou eventuais panfletos que nada contestam com suas programadas mensagens ditas sociais. Desta matéria feita de linguagem bem comportadinha ou quando muito de profunda opção pelo social, até de fogo já tivemos um marimbondo destilando seus versos no mais alto degrau do poder, vasto país de parca memória, a poesia deve se afastar, o mais rapidamente possível, se deseja realmente receber o voto de que é necessária e como necessária será apreciada de algum modo pelo povo. Subverter e contestar o apuro da idéia sublime, do jogo pueril da língua, da falsa bonança que rege as relações sociais e da melancólica indiferença travada entre as pessoas eis as pistas para melhor se entender a incessante procura do que se convencionou chamar de identidade. Aqui, identidade que se revela na articulação com o outro agregando ao eu fragmentos acumulados em cada andança, em cada olhar trocado, em cada diálogo. Enfim, o poeta reencontra em si mesmo os resquícios que os outros foram lhe emprestando no decorrer da travessia. Toda travessia do poeta é um móbile de empréstimos. Sua identidade espreita os silêncios que conduzem à in-comunicabilidade ou não do poema. Para estabelecer os nexos do diálogo, a proposta do poeta é se travestir, e travestido ele consegue romper a casca que o impede de ser ele mesmo.
A literatura de R. Roldan-Roldan abrange, até o momento, os seguintes livros de contos Carta de Uma Mulher Separada (Pontes, 1990), Kabul, antes, depois (Pontes, 1991) e Ao Sul do Desejo (Komedi, 1997); na poesia, publicou O Exílio do Silêncio (Iluminuras, 1995), Os Úberes do Infinito (Komedi, 1998) e A Dor da Identidade (Komedi, 1998); como romancista escreveu Azeviche ou Nossa Senhora do Sagrado Sexo (Iluminuras, 1993) e, mais recentemente, lançou o primoroso romance O Bárbaro Liberto [Mnaloah] pela Lemos, 1999. Dada a senha, é importante ressaltar, ainda, a junção temática que transparece nos versos do poeta e é aquilo que move os três livros de poemas anteriores ao inidentidade, como uma linha que perpassa a poemática viagem de R. Roldan-Roldan e está amparada em quatro trajetórias que procuram alcançar um só destino. As quatro direções podem ser retiradas dos próprios títulos dos livros: o exílio, o infinito, o silêncio e a dor. Todas endereçadas ao entendimento da própria identidade, este fio de água que corre e corre nas cifras do destino que é a alma do poeta. Re-feito o manto que tece nas infinitas horas de angústia, solidão, amargura, desespero e melancolia, a poesia se desdobra e desdobrada, o poeta mergulha no abismo habitado por anjos decaídos. Só assim, poderá recuperar, a custa de muita dor, algum incandescente sentido para o seu percurso feito na voragem da paixão e do desejo, essas coisas tão apequenadas pela ganância inescrupulosa da sociedade. Ser em tal universo constitui a tirania das máscaras, aquela que não comporta atitudes corajosas, arrojados desígnios manifestos, enfim, o ser nesse mundo comezinho, vale muito mais quando o pacto da mediocridade se estabelece. Para minar toda e qualquer mediocridade que anda solta, leve e livre na sociedade e empesta com boas intenções a arte, R. Roldan-Roldan oferece de corpo inteiro e alma tranqüila uma ampla visão das metamorfoses do seu itinerante exílio degustado com impaciência e raiva, mas, sobretudo, com selvagem lucidez. Inidentidade para se dizer o mínimo é uma espécie de canto de Maldoror, Lautréamont deslizando sua visceralidade poética nas portas do silêncio dentado e repleto de tentações. É a escrita em brasa, êxtase consagrado com o sangue dos peregrinos. É a cólera ofertada em cálices de espasmos e gemidos, a overdose anárquica que subverte as normas pela remissão das promessas vãs. Inidentidade em suas quatro versões lingüísticas, Livro I – Português (Canção de maio e outros poemas), Livro II – Inglês (The last fallen leaves), Livro III – Espanhol (La soledad del retorno) e Livro IV – Francês (L’exil du desir) contamina com incandescentes verdades o coração oculto da existência. Cada língua vibra de acordo com a rutilância das palavras que exprimem com maior vigor as sensações esvoaçantes do exílio. O ser só independe de lugar, data e língua. Maldoror à deriva, sangrando e exalando sua impaciente revolta contra a anomalia burguesa e hipócrita que campeia as instituições mundanas. Portador de incomunicabilidade, o poeta, paradoxalmente, nutre a natureza com os diálogos de suas máscaras. Esguicha gozos por meio de cartas com destinatá
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