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Bem-vindo(a) visitante 18586299, 02/09/2010 • www.kplus.com.br |
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A primavera de Ginsberg Luiz Alberto Machado
Eu
não ouvi a notícia de que esta terra verdeamarela propiciaria a vida de seus
nativos numa corda bamba abissal, a longo prazo, até que louras intenções
desviassem os rumos tropicais até a sua indignação; Não
saberia eu, civil fulustreco, que emboabas seriam sempre bem-vindos para se
apoderarem do nosso mais sagrado rancho, a dispor de regras e razões superiores
para não termos de nos envergonhar ao subtrair nossa integridade; Jamais
imaginava que pudéssemos enterrar nossos mortos no mais ingênuo mito folclórico
a troco de veneração mais assídua por valores alienígenas que nos tomaria a
direção da venta para o estardalhaço da admiração; Surpreendido
fiquei com esta pobre gente que vive bebendo água na orelha dos outros, a
cochichar no mais despudorado porão da vergonha as mais forjadas inverdades
sobre a democracia e seus peculiares benefícios adulterados para a liberdade do
gasta-gasta e da possessão maníaca de ter o que não pode ter; Sabia
lá que os tais invasores, batizados em águas quentes nos frios do norte,
pudessem se enraizar e conviver conosco como um de nossa casa, dando pitaco até
nas nossas decisões com mágicas citações divinamente salvadoras; Nem
me tocava que os bigorruptos e seus papéis de merda bizantina onde estão
inscritos os diversos saldos astronômicos de nossa dívida enrolada,
proporcionavam aos ventos brandos o poderio dos bobisnicolaus sentados nas
tesourarias públicas, bufando seus sopros de bóreas para os mãozinhas de luvas
e manguinhas de fora; Nem-seu-silva-de-dar-bola
para as vítimas latinas cujo sangue hoje banha o colossal tesouro das
metrópoles maiores do mundo e seus suntuosos edifícios de dar água na boca; Benevolentemente
sequer prestava atenção aos discursos, os mais ásperos dos mais importantes da
nação, quando se tratava dos que cagam na vela, seres de meia tigela, ousando
gritar por justiça quando já desapareceram com os céus e roubado a balança e a
venda de Têmis; Nem
prestava atenção aos alcoviteiros inescrupulosos do poder, brilho maior da
televisão engalanada, portadores da má notícia, a nos avisar dos abismos que
nos meteríamos pelos gritos de liberdade que empunhamos, excluídos da festança
abastada dos vencedores, donos do nosso escrutínio, que trocam a mãe por um
condomínio luxuoso, e que padeceríamos, por isso, de mil achaques e seria
grande o alarido dos nossos pecados; Nunca
consultando a constituição pelos atos de exceção ou disposições transitórias
que mais confundem já dos tantos artigos e parágrafos dúbios de códigos civis
ou penais ou sei lá mais, qual gramática complicada – para que tanta lei, me
Deus, se apesar da compulsoriedade jamais será cumprida!! Ou
que por eloquência nossa, mais fácil falar a língua do inimigo como se nada
tivesse acontecido; Ou
que por superioridade nossa no meio dessa misturada doida, prescindiríamos de
leis e governos; Ou
que por universalidade nossa, adaptaríamos nossa vida à todas do planeta numa
carnavalizante existência; Ou
que por sapiência nossa, misturaríamos de tudo para traduzir o sumo do bom e do
melhor nos esquecendo da excrescência noturna com que alicerçamos nosso ontem,
enlameamos nosso hoje e fabricamos um infecto amanhã; Qual
nada Se
todos os ardis nos iludem na página rotineira de uma novela televisiva; Se
todos os escroques nos remetem aos apuros com malabarismos sentimentais; Se
a todo momento expomos a mão à palmatória num vexame bisonho; E
isso nada tem haver com nosso bocejo perene, oh! plebe ignara! Chamo
de gato ao gato E
ao governante de patife! Cada
qual cuide de si Pois
todos os banquetes do palácio estão regados com nosso sangue de vítimas
desmioladas, presas fáceis dos falastrões incorrigíveis, de gestos fesceninos,
adeptos de gestapos e fiéis de Gog e Magog; Qual
nada Cultivemos
então nosso orgulho majestoso do jeitinho para tudo, jogando uma bola fenomenal
e flertando a bundinha daquelas que seguem para a praia a procura de uma noite
por maior prazer, beldades de uma geografia anatômica capazes de esbugalhar os
olhos dos mais insensíveis; Cultivemos
nosso orgulho pelos bens adquiridos através do processo de Felipe da Macedônia,
felizes por dar uma marretada no otário que sai todo dia de casa com um chapéu
que é a porrada da ocasião, da tapeação e ainda sorrir por haver lesado um
imbecil; Pelos
presentes de Artarxerxes aos nossos desafetos, fofoqueiros que se metem em tudo
como um azarão a nos perseguir; Pelos
que fazem política como pó de Pirlimpimpim e nos conduzem numa nau à deriva,
sabe lá, Deus, para onde!!!! Pelos
tolos que cumprem as leis violadas pelos sabidos; Pelas
leis que fazem vista grossa nas dilapidações e nos dão essa segurança de
impunidade na rua; Pelas
leis que vão até onde o rei falso quiser – toda lei na mão do feitor! Pelos
que fazem a guerra e ainda se arvoram na petulância de anunciar que o fazem por
amor à humanidade, filhos da puta! Pelos
que vivem de julgar a todos segundo seu próprio juízo e vomitam razões
esquálidas na mais sectária das visões; Pelos
ambidestros sobre as farândolas dos falidos que cultuam o carnaval para se
esbaldar da nossa desgraça e mangar da nossa besteira por santificá-los como
bem sucedidos, quando não passam de um vesano sobre os nossos detritos e suas
diatribes; Pelos
rabagás, os tais déspotas, cultores de tudo na base do balão de ensaio,
postulantes às tendas de meninas fiéis católicas, que mal geram filhos e negam
os peitinhos empinados para que não lhe caiam até a barriga desagradando seu
patrão; Por
esta multidão andrajosa a exibir suas deformidades, dormindo no ponto, sequer
desconfiando da sede do abismo com um riso banguela na hora mágica do gol; Por
essa gente que gosta de tanger gente na maior sem cerimônia; Por
essa gente que leva a riqueza dos outros na pontinha do dedo sem o menor rubor; Pela
história mentirosa que se ensina e a vergonhosa que segreda, quando aqui
fenícios deixaram indícios suméricos mais valiosos na pré-cabrália e ninguém se
deu conta do que seria, por isso deu no que deu! ·
será, então, um deus moreno, com um olhar tropical,
indevidamente preterido, esperando, esperando, esperando por um novo milagre?
ah! Para tanto há milagre de abril, cor anil, tão sutil, para ser hostil, com
mentiras mil, ah!!! ·
Ah! Se um Frínico tivesse aqui o poema da comoção
popular!!! A
terra é redonda E
ainda, assim, cagam pelos quatro cantos de mundo!! Mas
se estivéssemos na América, no continente americano, onde o sol sempre é
enxaguado por sangue e,
então, fôssemos para a América do Norte, uivando os mais sinceros arrotos
psicodélicos sobre a face majestosa da Estátua da Liberdade, mijando num
canteiro do Central Park e fosse preso em nome do pudor democrático dos
americanos mais brancos possíveis ou
negros mais ricos sobre pretos mais pobres; e se estivesse na Quinta Avenida,
onde ninguém teve a coragem de engolir os sapos mais audazes daqui; e
se tornasse uma locomotiva doida no comércio promissor de Miame sob o pretexto
dos maiores meios de acender Whitiman e sua admiração pelos nossos, como se
fosse um Halley gritando versos de Dilan Thomas e cantando Ezra Pound para os
desvalidos nordestinos daqui; ou
se falasse de Nixon e Watergate e repulsasse o caso Vietnã ou de Sacco e
Vanzetti e se negasse a biodiversidade em nome do burgo anglo-americano,
ninguém saberia nada!! E
se louvasse a pirataria no Atlântico ou os fugitivos dos famosos Round Heads de
Cromwell ou o boicote no porto de Boston pela autonomia aduaneira; ou
a batalha de Lexington; ou
o patriarcado indisfarçavelmente latifundiário com seus vultosos capitais sobre
a escravaria negra; ou
a vingança fanática sulista desferindo petardo contra Lincoln após a guerra
vitoriosa da Secessão; ou
dos fugitivos das perseguições de Jaime ou Carlos Primeiro; ou mesmo com a
declaração dos direitos de Virgínia, quem saberia? Ou
se encontrasse gente da melhor cepa e cada vez mais afoito em dominar
escrotamente ferrenho, dilacerando legislações como a rotular cu-de-mãe-Joana
em qualquer país latino-americano, peritos
na arte de exterminar a sangue frio e serem perdoados na piedade dos tribunais
mais auto-suficientes do universo, esmagando
a todos com a sua avareza e cultuando o controle da natalidade para financiar
abortos na fúria dos Torquemadas messiânicos, usurpando
quereres para gozar na punheta de todos os mandos!!!! Qual
nada O
bom prá essa gente é cívico devotado, besta quadrada, cumpridor dos dez
mandamentos, portador das boas maneiras e não passar de um intelectual de
sovaco que se enraba só para ver-lhe a careta e, ainda, depois, queimam-lhe o
rabo e dizimam a honra e tanto se provoca o terror que um dia sua própria
cabeça também desce ao cadafalso!! Qual
nada Eles
não sabem que a pobreza ainda é o maior crime da sociedade civilizada ou fingem
não saber da distrofia pluricarencial hidropigênica ou da delinqüência infantil
ou das distonias cerebrais ou das desigualdades sociais como para o predador e
a lei quanto mais amor maior violência!!! Qual
nada Batem
no peito, expõem comendas e desonram tudo, botando as mangas de fora, fudendo
tudo que lhe vem pela frente, como carniceiros nos impondo contratos leoninos
assinados por débeis representantes e ignóbeis avais populares, assumidos
publicamente para a constatação de uma insolvência que jamais será amortizada,
a não ser por sangue e suor de herdeiros futuros que nos responsabilizarão pela
inércia, aiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiai!!!! Mas
podemos ainda felizes sambar nas praias do nosso lindo litoral nem nos dando
conta de tais leviatãs E
ainda podemos sorver uma cerveja gelada no boteco da esquina sem nos incomodar
com as cambadas e confrarias de nada no conluio dos interesses; E
ainda gritar de emoção num lance de gol desconhecendo enxames, matilhas ou
pragas ou quadrilhas ou súcias ou varas ou glutões ou vilões dos nossos
congressos, legiões de algozes duma ação de verdugos com bocarras exuberantes e
seus guinchos de sanha aracnídeas, inimicíssimos de nós meridionais; E
ainda podemos remexer o esqueleto na Marquês de Sapucaí, pisando nossos
remorsos, aplaudindo lúculus e gangsters e facínoras que financiam as atrofias
das nossas vontades!!!!! E
ainda podemos melar os pés no pantanal mato-grossense, desconsiderando homicidas
sobre os incipientes lerdos inofensivos que não tem nem deus nem nada para se
amparar!!!! E
ainda podemos singrar as águas do São Francisco sem sabermos que somos
verdadeiros suicidas na absolvição dos infratores no centro de uma hemorragia
de idólatras no urinol!!!! E
ainda podemos passear pelas ruas de Olinda sem prevermos da gatunagem dos que
se dizem dermatóglifos de nossa missão, quiromantes do nosso destino,
redentores do nosso sofrimento, puta-que-o-pariu!!!! Quem
somos além de usuários de um reino diáspora com falcões nos plenários a nos
mostrar o homem e o seu lobo, o predador e a sua presa, o desigual do forte
sobre o fraco, deus meu? Só
a poesia tornará a vida suportável!!!!!!!! Sobre o autor: Luiz Alberto Machado é
escritor e compositor. Poema do livro "Trâmite da Solidão", no prelo.
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