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Uma pessoa mística

Alessandro Lima


Esta crônica é uma readaptação literária de textos de Fernando Pessoa. As perguntas são fictícias, mas todos as frases aqui colocadas em forma de “resposta” foram reproduzidos exatamente da mesma maneira como foram escritas pelo poeta.

Nós, da revista Reviver, temos a satisfação de apresentar em primeira mão, a última entrevista pós-morte de Fernando Pessoa, o último maior poeta da língua portuguesa. Fernando Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, 1888, e morreu em 1935. Sua obra em vida abordou magistralmente a complexidade psíquica, metafísica e ontológica do ser humano, expressando-a através de constantes e fascinantes paradoxos.

Reviver – O que o senhor pensa fazer de agora em diante?

Fernando Pessoa – Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.

R – No famoso poema “Autopsicografia” publicado em 1932, o que o senhor quis dizer com aquele poema em que se diz “O poeta é um fingidor”?

FP – Fingir-se é conhecer-se. Multipliquei-me, para me sentir.

Em vida, o senhor tinha poucos amigos. E agora?

Não tenho ninguém em quem confiar. A minha família não entende nada. […] Não tenho realmente verdadeiros amigos íntimos, e mesmo aqueles a quem posso dar esse nome, no sentido em que geralmente se emprega essa palavra, não são íntimos no sentido em que eu entendo a intimidade. Um amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos cotidianos, embora esteja certo de que nunca chegarei a ter um verdadeiro amigo íntimo.

Como o senhor se vê? O senhor se autoconsidera uma celebridade?

Eu vejo-me e estou sem mim. Conheço-me e não sou eu. […] O homem que se torna célebre fica sem vida íntima. Todo homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto de se exibir.

Como anda a sua vida sex… digamos…

Acabemos com isto. Amantes ou namoradas é coisa que eu não tenho; e é outro dos meus ideais, embora só encontre, por mais que procure, no íntimo desse ideal, vacuidade, e nada mais.

O senhor guarda mágoa de algum relacionamento?

Não tenho rancores nem ódios. Esses sentimentos pertencem àqueles que têm uma opinião, ou uma profissão ou um objetivo na vida. Eu não tenho nada dessas cousas.

O senhor é uma pessoa feliz?

Triste de quem é feliz! Vive porque a vida dura.

O senhor viveu anos sobre os livros. E agora não pensa em gozar um pouco a vida?

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. […] Vive-nos a vida, não nós a vida. […] Viver não é necessário; necessário é criar.

Não compreendo…

A erudição é uma soma; a cultura é uma síntese; a compreensão é uma vida.

O que o senhor acha da nossa vida aqui na terra?

A vida moderna é um ócio agitado. O antigo artesão tinha de trabalhar; o atual operário tem de fazer uma máquina trabalhar. Movemo-nos muito rapidamente de um ponto onde nada está sendo feito para outro ponto onde não há nada a fazer, e chamamos isto a pressa febril da vida moderna. Não é a febre da pressa, mas pressa da febre.

Em vida, o senhor lia bastante, desde a infância. O senhor se lembra de algum livro?

Foram as numerosas novelas de mistério e de horríveis aventuras o mais antigo alimento literário de minha infância. Aquelas revistas, chamadas de revistas para rapazes e que tratam de excitantes experiências, pouco me interessavam.

Por que o senhor assinava seus poemas com nomes diversos, os chamados heterônimos?

Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito? […] Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. […] Por qualquer motivo temperamental, construí dentro de mim várias personagens distintas entre si e de mim, personagens essas a que atribuí poemas vários que não são como eu, nos meus sentimentos e idéias, os escreveria.

O sentimento poético é uma mentira?

A sinceridade emocional não deve entrar na poesia. Esta deve contar com a  sinceridade artística. Os sentimentos devem ser imaginados e não sentidos. […] [Há três maneiras de] viver a vida em Extremo: pela posse extrema dela, pela viagem ulisséia através de todas as sensações, através de todas as formas da energia exteriorizada [Álvaro de Campos]; pela abdicação inteira [Ricardo Reis]; e pelo caminho do perfeito equilíbrio [Alberto Caeiro].

Seria uma espécie de “novelismo em poesia”? Como se escreve em nome desses três?

Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstrata que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. O meu semi-heterônimo Bernardo Soares que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterônimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afetividade.

O seu jogo dialético de afirmação e negação, o seu paradoxo não coloca em xeque a sua obra?

O paradoxo não é meu; sou eu.

A chuva o deixa triste ou molhado?

O que em mim sente está pensando.

E a intuição? É um sentimento?

A intuição é a inteligência da emoção.

Como assim, o senhor teria vocação para loucura?

Sem a loucura que é o homem, mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria? […] O meu caso é de natureza psíquica... Sou um histeroneurastênico com predominância do elemento na emoção e do elemento neurastênico na inteligência e na vontade... Partiu-se a corda do automóvel velho que trago na cabeça, e o meu juízo, que já não existia, fez tr-r-r-r... Interrompi meu namoro. Tenciono ir para uma casa de saúde ver se encontro ali tratamento que me permita resistir à onda negra que me está caindo sobre o espírito... A minha alma partiu-se como um vaso vazio... Sou um espelhamento de cacos. Quantos sou eu? Sabes quem sou? Eu não sei. Medo de amor. Tenho sonhado mais do que Napoleão fez.

O senhor nos diz em um dos seus poemas que “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Valeu a pena viver para depois morrer?

Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente. […] Meu destino pertence a outra lei, de cuja existência poucos sabem, e está subordinado cada vez mais à obediência de mestres que não permitem nem perdoam. […] I am older than Nature and her Time […] Alguma coisa em mim nasceu antes dos astros. E viu, lá muito ao longe, começar o sol.

O senhor poderia explicar isso melhor? Que tal em forma de poesia, para terminarmos?

Emissário dum rei desconhecido,
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anômalo sentido...
Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre que lido...
Não sei se existe o Rei que me mandou.
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...
Mas ah! eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...
[…]
Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.
Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.
[…]
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

(fim da entrevista)


Sobre o autor:

Alessandro Marino Lima

E-mail para contato: alima28@uol.com.br



Matéria publicada em 01/10/2001   - Edição Número 26