Juro que não tinha escutado o tal gerundismo até a véspera do
feriado de 1º de maio, motivo pelo qual eu ainda não havia tratado do assunto
nesta página. Só ouvindo para crer.
Toca o telefone: era um rapaz muito simpático a fazer novo cadastramento
do proprietário daquela linha telefônica. Tentei me escapar dizendo que estava
no nome do meu marido, mas fui "fisgada" quando ele se saiu com esta:
A senhora pode estar respondendo a duas ou três perguntas?
Eu vou estar confirmando os dados... blablablá... Nossa empresa vai estar
lhe informando blablablá... A senhora vai estar pagando diretamente em conta
corrente...
Espera aí, moço. Será que não dava para fazer algumas
alterações nesse texto que você acaba de ler?
Como assim?? [surpreso e assustado]
É o seguinte [me identifiquei melhor e...]: em vez
de usar o verbo estar com o gerúndio, por exemplo "estar respondendo", você
vai direto para o verbo principal: "responder".
Ah, eu uso o presente...
Não é bem o presente, é o infinitivo. Assim: em vez de dizer
"pode estar respondendo", você diz pode responder; "vou estar confirmando"
fica vou confirmar; "vai estar lhe informando" - vai lhe informar;
"vai estar pagando" - vai pagar, e assim por diante.
Está bem. Então posso estar continuando... ops!...
pos-so con-ti-nu-ar [enfático] a mensagem?
Vamos lá.
A senhora vai... [pausa] re-ce-ber em seu
domicílio...
Só não perguntei qual o nome do rapaz. Foi pena - eu poderia
sugerir à empresa um melhor aproveitamento do seu funcionário, por sua disposição
em aprender tão rapidamente a lição. Quanto a mim, cairia bem um descontinho
nas ligações pela aula à distância...
Isso não quer dizer que o gerúndio seja abominável. Pelo
contrário: ele pode e deve ser usado para expressar uma ação em curso ou uma
ação simultânea a outra, ou para exprimir a idéia de progressão indefinida.
Combinado com os auxiliares estar, andar, ir, vir, o gerúndio marca uma ação
durativa, com aspectos diferenciados:
1) com estar, o momento é rigoroso:
Está havendo, hoje em dia, um certo abuso...
Os preços estão subindo todos os dias.
O país está entrando numa crise sem precedentes.
2) com andar, predomina a idéia de intensidade ou movimento
reiterado:
Andei buscando uma saída para a crise. Andaram falando mal de ti.
3) com ir, a ação durativa se realiza progressivamente:
O tempo foi passando e nada de solução.
Aos poucos ela vai ganhando a confiança do patrão.
4) com vir, a ação se desenvolve gradualmente em
direção à época ou ao lugar em que nos encontramos:
O livro não registra como tal expressão vem sendo
usada pelos brasileiros.
A noite vai chegando de mansinho.
Gerundismo e endorréia
Sobre o artigo acima [nº 120] gostaria que desenvolvessem mais
o tema, pois o uso do gerundismo está absolutamente difundido. Às
vezes assisto a palestras e acabo prestando mais atenção à
forma que ao conteúdo tamanho é o uso do gerundismo. Doem meus
ouvidos. Graça, São Paulo/SP
Também o leitor Joilson Leal, de Belo Horizonte/MG, se interessa pelo
tema e pergunta: Qual o macete para descobrir o gerundismo e não
entrar nesse horror?
Se o gerundismo é fenômeno lingüístico relativamente
recente no Brasil, não o é a endorréia é
assim que os puristas chamam ao abuso do gerúndio e ao seu uso pouco
vernáculo, informa Rodrigues Lapa, em Estilística da Língua
Portuguesa (1959:177). Esse nome um tanto esdrúxulo provém da
formação do gerúndio nos verbos da segunda conjugação
[vender vendendo] e chama a atenção para um excesso que
chega a soar mal aos falantes do português europeu.
Dizem que a endorréia é francesismo. Já o gerundismo
é atribuído à influência do idioma inglês
no Brasil. Seria uma tradução malfeita de I am going to
do something [literalmente: Estou indo fazer algo], ou então
a tradução ao pé da letra de um futuro muito usado pelos
americanos: We will be sending you the catalog soon, que se pode
traduzir por Nós estaremos lhe enviando o catálogo em
breve, ou melhor, Nós lhe enviaremos..., ou ainda,
nós vamos lhe enviar o catálogo..., sem se precisar da
fórmula *Nós vamos estar lhe enviando.
Esta construção abusiva do gerúndio é muito utilizada
nos serviços de atendimento ao cliente por telefone e telemarketing,
e nesse caso pode se explicar por uma tradução apressada dos
manuais que vêm do exterior. Mas ela se repete em inúmeras outras
circunstâncias porque de fato entrou no gosto do brasileiro veja-se
a endorréia tão nossa!
De qualquer modo, há que se distinguir o bom do mau emprego gerundial.
O problema consiste em saber se de fato o uso do gerúndio traz
vantagem estilística sobre os outros processos (idem, p. 178).
Vale dizer que ele é muito apropriado nos casos em que se necessita
transmitir a idéia de movimento, de progressão, duração,
continuidade.
É correto, então, nestes exemplos (reais):
1) Em virtude do atraso, estaremos recebendo o pagamento em conta corrente
nos dias 27 e 28.
2) Podemos nos encontrar no fim-de-semana?
Infelizmente não, pois vou estar viajando. [ou: estarei viajando]
3) Em outros artigos ela estará dando maior atenção
a cada um desses temas.
4) Ela deve estar fazendo as tarefas de casa agora.
É abusivo gerundismo nos seguintes casos:
5) Vou aproveitar o 13º para estar pagando tudo. [devemos trocar por:
para pagar]
6) Concomitantemente, temos que estar discutindo e reconstruindo um currículo
escolar que venha a ser um instrumento de formação integral.
[temos que discutir e reconstruir]
7) Estes temas devem servir para estarmos aprofundando as discussões.
[para aprofundarmos]
8) Nossos atendentes vão estar efetuando a cobrança somente
em maio. [vão efetuar = efetuarão]
Repetindo o que vimos em coluna anterior (Gerundismo) e considerando
as frases acima: evita-se o gerundismo ao fazer a troca da locução
verbal ESTAR + GERÚNDIO por um simples INFINITIVO (flexionado ou não),
desde que não se trate efetivamente de uma ação durativa,
como nos exemplos 1 a 4.
Sobre a autora:
Maria Tereza de Queiroz Piacentini
é catarinense, professora de Inglês e Português, revisora de textos
e redatora de correspondência oficial há mais de vinte anos. Em 1989 foi responsável
pela revisão gramatical da Constituição do Estado de Santa Catarina
e no ano seguinte publicou artigos sobre questões vernáculas em diversos jornais.
Retoma agora a publicação de colunas semanais com temas atualizados, em vista
da experiência adquirida e das inúmeras consultas que lhe têm feito pessoas
de todo o País depois que lançou o livro Só Vírgula - Método fácil em 20
lições (UFSCar, 1996, 164p.). Também teve publicados, em 1986, dez módulos
da Instituição Técnica Programada - ITP, Português para Redação, edição
esgotada.
Hompege: www.linguabrasil.com.br
Matéria publicada em 01/08/2003
- Edição Número 48